domingo, 31 de outubro de 2010

Otelo

"DESDÊMONA - Vamos ao encontro dele para recebê-lo.
CÁSSIO - Ei-lo que chega.
(Entra Otelo e séquito.)
OTELO - Minha linda guerreira!
DESDÊMONA - Caro Otelo!
OTELO - Tanto contentamento quanto espanto me causa ver que antes de mim chegastes. Ó alegria de minha alma! Caso viesse sempre depois da tempestade semelhante bonança, poderiam soprar os ventos de acordar a morte. Que o meu barquinho escale montes de água tão altos quanto o Olimpo e, após, afunde tanto quanto distar do céu o inferno. A morte, agora, para mim seria uma felicidade, pois tão grande é a ventura que da alma se me apossa, que não pode, receio-o, reservar-me outra igual o futuro nebuloso.
DESDÊMONA - Permita o céu que nosso amor e nossa felicidade cresçam como os dias que ainda temos de vida.
OTELO - Amém, poderes inefáveis! Não posso falar muito sobre esse assunto. Sinto-me abafado: é excessiva alegria.
(Beijando Desdêmona.)
Recebe este, e este também. Que a única discórdia de nossos corações tenha este aspecto."
"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura..."
(em O Guardador de Rebanhos)

sábado, 30 de outubro de 2010

Soneto da Separação

"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente."

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Quando penso em ti

"Quando em minha desgraça e sem fortuna sigo
dos homens desprezado, e minha sorte choro,
praguejo contra os céus insensíveis, deploro
meu destino, e em protesto inútil me maldigo.
E os ricos de esperança invejo, e, num momento,
anseio ter também prazeres, alegrias,
tudo o que à alma nos traz algum contentamento
e de amizades enche o decorrer dos dias…
Mas se assim desolado estou, e penso em ti,
tal como a cotovia ao vir da madrugada,
canto à espera do sol, à luz que ainda não vi,
e me sinto feliz, e sou rico talvez,
pois tendo o teu amor em minha alma encantada,
nem troco o meu destino e nem invejo os reis!"
"Ninguém pode construir em teu lugar
as pontes que precisarás passar
para atravessar o rio da vida -
ninguém, exceto tu, só tu."

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Lolita

"Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita." (Vladimir Nabokov em Lolita). 

Geléia de Tangerina

Como o frio voltou e férias são tempos de prazer e descanso, lá fui eu pra cozinha...
Essa receita é especial, porque passada de geração em geração. Coisa de alemão, logo, ela não é doce, é saborosa. Experimentem!
Como para fazer geléia é preciso paciência e ela sempre rende menos do que gostaríamos, sugiro fazer a receita dobrada!

Ingredientes
10 tangerinas (daquelas pequenas, bem saborosas)
5 xícaras de chá de água
1 1/2 xícara de chá de açúcar
Suco de 1 limão

Modo de fazer:
Tire as cascas das tangerinas, corte-as em tirinhas finas e reserve.
Em uma vasilha, amasse a polpa da fruta, junte as tirinhas de casca, cubra e deixe de molho por uma noite.
Em uma panela. ferva a mistura em fogo alto. Abaixe a chama e cozinhe por 50 minutos, até as tiras de casca ficarem macias. Adicione o açúcar e mexa para dissolver.
Junte o suco de limão, aumente o fogo e ferva por 20 minutos, ou até engrossar e aparecer o fundo da panela.
Depois de fria, coloque a geléia em vidros esterilizados.
Sirva gelada ou à temperatura ambiente.

Porque é preciso deixar ventar novamente...

"[...] e tão dissimulado te espio que nunca me percebes assim, te devassando como se através de cada fiapo, de cada poro, pudesse chegar a esse mais de dentro que me escondes sutil, obstinado, através de histórias como essa, do mar, das velhas tias, das iniciações, das cicatrizes, e em tudo que me contas pensando, suponho, que é teu jeito de dar-se a mim, percebo farpado que te escondes ainda mais, como se te contando a mim negasses quase deliberado a possibilidade de te descobrir atrás e além de tudo que me dizes, [...]  mas volto e volto sempre, então me invades outra vez  com o mesmo jogo e embora supondo conhecer as regras, me deixo tomar por inteiro por tuas estranhas liturgias, a compactuar com teus medos que não decifro, a aceitá-los como um cão faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que me vais jogando entre as palavras e os pratos vazios, torno sempre a voltar [...]."

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Encontros

Uma boa notívaga sempre desconfia de alguns acontecimentos à luz do Sol.
Ainda é difícil crer que as coisas boas estejam no que é simples.
É bastante complicado controlar expectativas.
Mas é sempre possível sermos surpreendidos.
O verde, o sol, o mar, o céu.
Teu jeito, teu gosto, teu abraço.
Carinho. Intimidade. Tranquilidade.
Pequenos momento de felicidade.
Lamento não ter te ouvido,
não teres podido ficar mais,
teres voltado pra longe de mim.

Dia Perfeito

"Um dia simplesmente perfeito
Os problemas todos deixados de lado
Passar o fim de semana sozinhos
É tão (mágico e) divertido!"
(Lou Reed em Atravessar o Fogo)

Alento

"Tudo que é belo é uma alegria para sempre:
O seu encanto crescer; e não cairá no nada.
Mas guardará continuamente, para nós,
Um sossegado abrigo, e um sono todo cheio
De doces sonhos, de saúde e calmo alento."
(John Keats em Ode sobre a Melancolia e Outros Poemas).

Para Uli e Vicky, que, apesar de dois cacos à toa, são lindas e nossa alegria para sempre!

A mulherada está à mil

Depois de muita 'absolut' com energético saíram essas:
"Do mamando ao caducando, vale tudo!"
"De Lolita a Balzaca, também tá valendo tudo!"
"Para o mamando, dê como se não existisse amanhã..."
"Para o caducando dê aos poucos, como se o amanhã fosse uma eternidade..."
Valeu Emerson, valeu Júnior, valeu No,
valeu tio Cézar, valeu Shaeffer, valeu Ale!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Comer, Rezar, Amar, mais um pouco...

"Eu queria que Giovanni me beijasse. Ah, mas são tantos os motivos que fariam disso uma péssima ideia... Para começar, Giovanni é dez anos mais novo do que eu, e – como a maior parte dos rapazes italianos de vinte e poucos anos – ainda mora com a mãe. Só esses dois fatos já fazem dele um parceiro romântico improvável para mim, já que sou uma americana de trinta e poucos anos que trabalha, acaba de passar por um casamento falido e por um divórcio arrasador e interminável, imediatamente seguido por um caso de amor apaixonado que terminou com uma dolorosa ruptura. Todas essas perdas, uma atrás da outra, deixaram em mim uma sensação de tristeza e fragilidade, e a impressão de ter mais ou menos 7 mil anos de idade. Por uma simples questão de princípios, eu não imporia essa minha pessoa desanimada, derrotada e velha ao adorável, inocente Giovanni. Sem falar que eu finalmente havia chegado à idade em que uma mulher começa a questionar se a maneira mais sensata de superar a perda de um lindo rapaz de olhos castanhos é mesmo levar outro para sua cama imediatamente. É por isso que já faz muitos meses que estou sozinha. É por isso, na verdade, que decidi passar este ano inteiro sozinha." (grifei - de Comer, Rezar, Amar, p. 15).

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Comer, Rezar, Amar

"Além disso, tenho problemas de limites com os homens. Ou talvez não seja justo dizer isso. Para ter problemas com limites, é preciso primeiro ter limites, certo? Mas eu sou inteiramente tragada pela pessoa que amo. Sou como uma membrana permeável. Se eu amo você, eu lhe dou tudo que tenho. Dou-lhe o meu tempo, a minha dedicação, a minha bunda, o meu dinheiro, a minha família, o meu cachorro, o dinheiro do meu cachorro, o tempo do meu cachorro – tudo. Se eu amo você, carregarei para você toda a sua dor, assumirei por você todas as suas dívidas (em todos os sentidos da palavra), protegerei você da sua prórpia insegurança, projetarei em você todo tipo de qualidade que você na verdade nunca cultivou em si mesmo e comprarei presentes de Natal para sua família inteira. Eu lhe darei o sol e a chuva e, se não estiverem disponpiveis, dar-lhe-ei um vale de sol e um vale de chuva. Darei a você tudo isso e mais, até ficar tão exausta e debilitada que a única maneira que terei de recuperar minha energia será me apaixonar por outra pessoa.
Não é com orgulho que eu revelo esses fatos sobre mim mesma, mas é assim que sempre foi." (grifei - do livro Comer, Rezar, Amar, p. 73-74).

Samba da Benção - Bebel Gilberto

Ainda no clima de Comer, Rezar, Amar... Imperdível!


Sobre o que Vinícius diz durante a música, na versão dele com o Baden Powell ...


É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

"Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão"

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

"Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão."
"Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveria viagens nem aventuras nem novas descobertas" (Voltaire)

sábado, 23 de outubro de 2010

A mulher madura

"O rosto da mulher madura entrou na moldura dos meus olhos.
De repente, a surpreendo num banco; olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a antevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso e esculpido como o de uma atriz, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.
Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.
A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo de repouso de garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.
A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota  de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte, e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.
Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, de um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela Praça de Siena à tarde, acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.
A mulher madura é um ser luminoso às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados de gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.
Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar."
(15.9.85)

Em: A Mulher Madura, p. 9-11.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Os Amantes

"Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça. Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem."
(em A Disciplina do Amor, p. 120)
Fica comigo essa noite...?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Gotan Project - Santa Maria (Del Buen Ayre)

Tengo miedo

"Te suplico que me dejes,
tengo miedo de encontrarte
porque hay algo en mi existencia
que no te puede olvidar;
tengo miedo de tus ojos,
tengo miedo de besarte,
tengo miedo de quererte
y de volver a empezar.

Se buenita, no me busques,
apartate de mi senda,
tal vez en otro cariño
encontres tu redención,
vos sabes que yo no quiero
que mi chamuyo te ofenda,
es que tengo mucho miedo
que me falle el corazón."

Norah Jones - Turn Me On

Nuances do amor

Tenho uma amiga que está namorando já há algum tempo um rapaz que mora longe.
A questão é que se vêem menos do que gostariam.
(Paixão é sempre assim, parece que nunca ficamos tempo suficiente juntos e as despedidas são sempre dolorosas.)
Enfim... ela acabou de me ligar.
De fato, no domingo, ela teve uma perda horrível.
Então ontem ligou chorosa, dizendo que precisava muito do colo dele.
(Acho, sinceramente, que isso tem nos faltado, meninas. Por que o medo de demonstrar carência ou fragilidade?)
Pois ele pegou o primeiro avião e foi vê-la.
Quando me contou hoje estava tão serena, tão tranqüila, tão... que me contagiou!
Não que o ato dele tenha sido pequeno se considerarmos as horas de deslocamento.... mas é uma coisa relativamente simples e que talvez nos falte sensibilidade em fazer no momento certo.
Pois ele fez.
E a fez feliz.

E em algumas situações, não há nada, nada, que substitua o aconchego dos braços da pessoa amada.

Fly Me To The Moon (Diana Krall and Quartet Performances, Las Vegas)

Vinho, um cigarrinho...
Almofadas jogadas no tapete macio da sala...
Um bom livro...
E uma única pergunta: onde andará você?!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

"Morreria de amor, deliberadamente. Era capaz de resistir ao desinteresse, à desatenção, à traição, mas não ao abandono. Resistiria a tudo, menos à ausência e privação do objeto amado." (em Aos Meus Amigos, p. 219).

Desde há muito...

Tudo começa por acaso.
A afinidade, as conversas intermináveis.
As reflexões sobre os acontecimentos noite adentro...
O dia seguinte que não chega para que comece tudo novamente...
e isso duraria uma eternidade.
Dias e dias se passam e só fazem aumentar a vontade, até que finalmente decidem se arriscar.
A compreensão e o anelo.
A cumplicidade e o zelo.
A ansiedade e o desejo...
A vontade do encontro, do toque, do cheiro, do beijo...
Tudo vai transformando o que era doce e tranquilo em um turbilhão de emoções.
E quando se dá conta, a vida foi tomada pela urgência...
Paixão.
No entorno, nada mais.
"Se o homem diz que a garota é de uma beleza exótica, o contexto não é desesperador; nem por isso menos tenso. Beleza exótica, na gíria masculina, talvez renda um caso. É o jeito de ele falar da sensualidade dela, de destacar a volúpia. Não ficou vidrado nos traços ou na aparência, e sim na imposição do temperamento. Beleza exótica é um elogio à inteligência, à conversa, ao inusitado. A mulher não é bonita, porém se torna bonita (são as mais perigosas)." (em O Amor Esquece de Começar, p. 39).

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Antígona

"No espaço mítico de Tebas, mais um acontecimento trágico para a linhagem de Édipo. O rei Creonte determina que se deixe insepulto o corpo de Polinices, irmão de Antígona. A partir desse interdito, Sófocles encena o entrechoque entre a perspectva abusiva da lei de Cretonte e o horizonte excessivo da desobediência de Antígona. A quem cabe o direito sobre a vida e a morte, a quem se deve obedecer?Entre a lei dos homens e a tradição sagrada - qual seguir? Um corpo insepulto clama, e aguarda a decisão dos vivos." (Contracapa de Antígona, de Sófocles, editado pela UnB).

Quando o amor acaba

"Evito olhar os casais de namorados nas paradas de ônibus, e tem um painel publicitário em que um homem olha para uma loira com um desejo tão escancarado que me retorço e choro só de imaginar você olhando assim para outra mulher, e eu sei que você está, ninguém precisa me contar, eu sei como é que você se cura, se trata, você não chora nem lamenta, você volta pra rua, você vai atrás de todas as mulheres suas feito um vira-lata, você está olhando nesse instante para outra mulher, está entrando nela, dizendo a ela como ela é gostosa, você está me matando dentro de você, e eu morro a quilômetros de distância, a sós comigo mesma, você transa com outra e me mata, você goza e me mata mais um pouco, você dorme e me deixa insone pra sempre, eu sei que não vai ser pra sempre, mas eu não enxergo o dia de amanhã, hoje eu só estou acordada pro eterno desse pesadelo, você era meu, droga, exclusivamente meu até dias atrás, meu como esse sofrimento." (em Fora de Mim, p. 22-23).

domingo, 17 de outubro de 2010

"Passei a ocupar meus dias pensando sobre o que, afinal, é isso que todo mundo enche a boca para chamar de amor, como se fosse algo simplificado: defina em meia dúzia de frases, é fácil, querida.
É fácil? Pois a querida não entende como uma palavrinha simples formada por apenas duas vogais e duas consoantes pode absorver um universo de sensações contraditórias, diabólicas, insensatas, incandescentes e intraduzíveis. O que é amor? Já tentei explicar a mim mesma e, por mais que tente, jamais conseguirei atingir a essência dessa anarquia que dispensa palavras." (em Fora de Mim).

A única prova (concreta) de amor

"O amor não é prosa e nem poesia. Aquelas três palavras não me servem. São sonetos sem pele, versos que não ressoam, metáforas que não suam, frases que não cheiram. "Eu te amo" não diz nada, entende? Não escreva o que sentiria se acordasse comigo. Acorde comigo. Não imagine meu cheiro. Me cheire. Não fantasie meus gemidos. Me faça gemer. O amor só existe enquanto amar. Ação. Calor. Verbo. Presença. Milímetros. Hálito.
A antologia poética do Cummings nunca engravidou ninguém. Não é o refrão de "Sexual Healing" ou qualquer solo de guitarra que arrepia cada orifício das minhas costas ou empina os pelos da panturrilha ou me umedece o centrípeto das pernas. Não me elogie a quilômetros ou horas de mim, não digite meu nome, não me telefone no meio da noite, não me convide por webcam, não quero um e-mail seu. As frases, as confusões, as lágrimas são minhas. Você tem o corpo.
Eu transito pelo mundo. Pego carona em carros, desvio de pessoas, contemplo edifícios, sento em cafés, folheio revistas, acho rapazes bonitos, navego por horas na internet, leio mensagens em PowerPoint, troco fofocas. Meu físico ocupa percursos, espaços, tempos e ainda assim meus fragmentos voam pelo chão. Eu não sou uma flor, um tesouro, a aurora boreal. Sou só uma mulher, me trate como tal. Fui feita pra ser tocada, não compreendida, decifrada, poetizada.
Não sou tempestade. Sou abraço. Não sou química. Sou física. Não sou vento. Sou movimento. Não sou música. Sou reboladas. Meu corpo não é o paraíso, é um lugar. Faça de mim o seu lugar. More em mim ou seja meu vizinho. Caminhe com o áspero da sua língua em todas as minhas texturas, meus calcanhares, minhas coxas, minhas axilas, minhas nádegas, entre os dedos na minha mão, atrás da orelha, no couro cabeludo, no lábio inferior, embaixo dos seios.
Eu não preciso de um bilhete, eu preciso de uma massagem na cintura, nos pés, na barriga. Eu não quero flores vermelhas, quero você dizendo baixinho o quanto sou gostosa. Não pense em mim. Me coma. Não me pondere. Me atravesse. Não me console. Me acarinhe. Não me deseje. Me deslize. Não me descreva. Me aproveite. Não me leia. Me dance. Não me pergunte. Me invada. Não me solucione. Me enxugue. Não me controle. Me conduza.
Puxe meu quadril, morda meu queixo, bagunce meus cabelos, chupe meus joelhos, esfregue seu peito em minhas costas, lamba a planta do meu pé, toque minha lombar, cheire minha virilha, aperte minhas vértebras, me dê a mão, respire perto de mim, me faça rir, uma omelete, um cafuné no sofá. Não sou uma floresta intocada. Sou uma mulher novamente virgem minutos depois que sua mão me abandona. Deguste meus cheiros, fareje meus gostos, beije minhas cores.
Não ache que consegue me abrir, me comover, me prender com apenas três palavras. Não quero ler ou saber que você me ama. Quero sentir isso. Quero tomar banho com você, ser olhada com ternura, que você se confesse entre meu pescoço e meus seios. Peça meu colo, abra minhas pernas, penetre seu carinho, me cante, se importe comigo, ejacule seu querer sobre mim, escute meus medos, enrole minha franja, persiga meu gozar.
Não perca a chance, não deixe pro dia seguinte. Não existo amanhã. Eu só existo dentro dos seus olhos, da sua boca, dos seus braços, na ponta dos seus dedos. Esqueça tudo que leu e ouviu sobre mim. O tempo que demora pra me fazer um texto é o suficiente pra derramá-lo sobre mim. Não me descreva, não me entenda, não diga me amar. Me ame apenas. O corpo é a única prova de amor."

Diana Krall - I ve got You Under My Skin

Alguma sugestão melhor para um domingo chuvoso?!

Devemos brindar!

Porque companhia, seja de que jeito for,
às vezes, é fundamental!

sábado, 16 de outubro de 2010

Ainda no clima das crianças...

Quando a gente pensa que já viu tudo, surge um príncipe ainda mais metrossexual, com jeitão de "cafa", e uma princesa que teve aulas de defesa pessoal!!! É o fim dos tempos!!!
hahahaha
Alguém aí lembra da indefesa Rapunzel?!

Fases

"Eis a que se resume a famosa rebeldia do adolescente:
amor ao mais forte que o despreza,
desprezo pelo mais fraco que o ama."
(Olavo de Carvalho)

Tem gente que parece ter entrado na adolescência e de lá nunca ter saído...

Sobre o que é eterno

Ela: ...
Ele: Saudade!!!!!!!!!!!!!!!!
Ela: Também sinto tua falta, mas estou bem. Espero que estejas bem e feliz. Beijo.
Ele: Depois de me dar alta do Contardo, estou bem... rsrsrs. Só não me curo de ti. Estou indo pra NY amanhã, Chicago dia 24. Tanta coisa pra te dizer... suspiro... Sinto tua falta. Ficar angustiado sem ti não tem graça... Quando voltar, te conto tudo... ou quase tudo... Beijo!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Reflexão pela semana da Criança e do Professor

"Eu queria uma escola que cultivasse
a curiosidade de aprender
que é em vocês natural.

Eu queria uma escola que educasse
seu corpo e seus movimentos:
que possibilitasse seu crescimento
físico e sadio. Normal

Eu queria uma escola que lhes
ensinasse tudo sobre a natureza,
o ar, a matéria, as plantas, os animais,
seu próprio corpo. Deus.

Mas que ensinasse primeiro pela
observação, pela descoberta,
pela experimentação.

E que dessas coisas lhes ensinasse
não só o conhecer, como também
a aceitar, a amar e preservar.

Eu queria uma escola que lhes
ensinasse tudo sobre a nossa história
e a nossa terra de uma maneira
viva e atraente.

Eu queria uma escola que lhes
ensinasse a usarem bem a nossa língua,
a pensarem e a se expressarem
com clareza.

Eu queria uma escola que lhes
ensinassem a pensar, a raciocinar,
a procurar soluções.

Eu queria uma escola que desde cedo
usasse materiais concretos
para que vocês pudessem ir formando corretamente
os conceitos matemáticos,
os conceitos de números, as operações...
pedrinhas... só porcariinhas!...
fazendo vocês aprenderem brincando...

Oh! meu Deus!

Deus que livre vocês de uma escola
em que tenham que copiar pontos.

Deus que livre vocês de decorar
sem entender, nomes, datas, fatos...

Deus que livre vocês de aceitarem
conhecimentos "prontos",
mediocremente embalados
nos livros didáticos descartáveis.

Deus que livre vocês de ficarem
passivos, ouvindo e repetindo,
repetindo, repetindo...

Eu também queria uma escola
que ensinasse a conviver, a
coooperar,
a respeitar, a esperar, a saber viver
em comunidade, em união.

Que vocês aprendessem
a transformar e criar.

Que lhes desse múltiplos meios de
vocês expressarem cada
sentimento,
cada drama, cada emoção.

Ah! E antes que eu me esqueça:

Deus que livre vocês
de um professor incompetente."

Para pensar em ti

"Para pensar em ti todas as horas fogem:
o tempo humano expira em lágrima e cegueira.
Tudo são praias onde o mar afoga o amor.

Quero a insônia, a vigília, uma clarividência
desse instante que habito – ai, meu domínio triste!,
ilha onde eu mesma nada sei fazer por mim.

Vejo a flor, vejo no ar a mensagem das nuvens
- e na minha memória és imortalidade -
vejo as datas, escuto o próprio coração."

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ela: Não quero mais ficar discutindo coisas pequenas!
Ele: Está bem, vamos deixar isso de lado...
Ela: Não percebes que é perda de tempo falar sobre determinados assuntos? Sentimos e percebemos de forma diferente. E algumas situações são passíveis de adaptação, outras não. Fico triste quando constato termos perdido tempo em que poderíamos ter ficado juntos e felizes com discussões estéreis. Chega. Vou pra casa.
Ele:  Por favor, não faz assim, fica mais um pouco... também não gosto quando você escapa de mim.

Dez chamamentos ao amigo

"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento"

Gosto quando te calas

"Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade."

Nina Simone - The Look of Love

Porque ontem me fizeram lembrar de bons momentos...

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

"... mas não pergunto nada.
Não demonstro sequer que a tua presença me estremece."
(furto lá da Suzi)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Íntimo e pessoal

De tudo aquilo que vai nos revelando aos poucos,
a voz talvez seja o que há de mais íntimo.

Feliz Dia da Criança!

Aproveite o dia e liberte a criança que há em você!

Criança

"Só as crianças e os velhos
conhecem a volúpia de viver dia-a-dia, hora a hora,
e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos..."

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Talvez fosse meio selvagem.
O animal que não está bem se afasta do grupo,
precisa achar um lugar aconchegante e seguro para descansar.
Não por muito tempo, pois que isso demonstra sua fragilidade, o expõe.
Uma gota de repouso lhe era suficiente para que voltasse
a ficar atenta, buscar, desejar, porque era do que realmente gostava.

Desejar

É um homem experiente, vivido.
Terno e rude, gentil e bruto,
culto e rústico, sensível e superficial.
Formava uma combinação exótica
que a fazia querer experimentar.
Quis intensamente. Recuou uma única vez.
Mesmo longe, ele sentiu.
Tomou as rédeas, impetuoso.
Ela se sentiu aliviada.
Estava cansada de desejar.
Queria ser desejada.


...embora soubesse que essa inversão durava pouco, muito pouco...

Melancolia

Sofro de melancolia latente
desde muito pequena.
Me descuido um pouco e ela me toma.
E eu nunca consigo defini-la:
não sei o que a desperta;
não sei como evitá-la;
não acho o ponto.
Fico à mercê do sentimento.
E isso não é bom,
nunca é bom.

Nobel

"O mesmo continente que, por suas gigantescas desigualdades entre pobres e ricos, por seus governos ditatoriais e populistas, é a própria encarnação do subdesenvolvimento, detém um alto coeficiente de originalidade literária e artística."
"Por que você não vem,
com sua fúria louca,
me puxa o cabelo
e me beija na boca?!"

Do que não foi

Sempre te dei liberdade.
A compreensão sempre foi o meu maior investimento.
No entanto, descobri que cada um tem a sua própria noção de liberdade e limites.
Tu ultrapassaste todos os meus limites.
Por quê?
Pra quê?
Tudo poderia ter sido diferente, eu sei...
mas não lemos os sinais...
logo nós, que estávamos tão habituados um ao outro...

domingo, 10 de outubro de 2010

Soneto 87

"Adeus, és preciosa demais para minha posse,
E muito provavelmente sabes o que vales;
A carta de tua superioridade dá-te liberdade;
Meus direitos em ti estão todos determinados.
Pois como te tenho senão por tua concessão,
E por tais riquezas onde está meu mérito?
Falta-me a causa dessa bela dádiva,
E por isso meu direito mais uma vez para trás se desvia.
Tu mesma te deste, teu próprio valor então ignorando,
Ou a mim, a quem o deste, ou por engano,
Assim tua grande dádiva, com a apropriação aumentando,
Torna a voltar-te, por melhor julgamento.
Assim eu te tive como um sonho nos lisonjeia.
No sono um rei, mas ao despertar nada disso."

Talvez por isso Harold Bloom tenha afirmado (e concordo plenamente!):
"Não se pode resolver a questão da influência sem levar em conta o mais influente de todos os autores nos últimos quatro séculos. Às vezes desconfio de que na verdade não nos ouvimos uns aos outros porque os amigos e amantes de Shakespeare jamais ouvem o que os outros estão dizendo, o que faz parte da irônica verdade de que Sheakespeare em grande parte nos inventou. A invenção do humano, como o conhecemos, é um modo de influência que ultrapassa de longe qualquer coisa literária." (em A Angústia da Influência, p. 14).

Amores (im)possíveis

Sempre se interessou, primeiro, intelectualmente...
Conhecê-lo fez reacender aquele esquecido brilho no olhar...
A cultura, a perspicácia, o raciocínio rápido, apesar da capacidade de se auto-sabotar...
A facilidade com que a fazia sorrir, gargalhar, apesar de a melancolia ser sua sombra...
O jeito terno e seguro, consciente e lascivo, apesar da pouca experiência...
Por isso tudo permitiu que a invadisse...
E descobriram haver sintonia.
Sintonia indispensável ao afeto.
Necessidade de proximidade.
Proximidade improvável a mundos tão diferentes.
E ela, apesar da intensidade e do desejo, sentia sua inquietação acalmar-se quando se aninhava em seus braços.
E ele, apesar de todo o entorno, vislumbrava nela a possibilidade de concretude do amor que tinha guardado dentro do peito por tanto tempo.
E deixaram-se guiar pela simples vontade de ficarem juntos o tempo que lhes fosse possível...
Desconheciam o fato de que o amor dói na distância,
que futuro não se constrói na impossibilidade.

sábado, 9 de outubro de 2010

Soneto de agosto

"Tu me levaste, eu fui... Na treva, ousados
Amamos, vagamente surpreendidos
Pelo ardor com que estávamos unidos
Nós que andávamos sempre separados.

Espantei-me, confesso-te, dos brados
Com que enchi teus patéticos ouvidos
E achei rude o calor dos teus gemidos
Eu que sempre os julgara desolados.

Só assim arrancara a linha inútil
Da tua eterna túnica inconsútil...
E para a gloória do teu ser mais franco.

Quisera que te vissem como eu via
Depois, à luz da lâmpada macia
O púbis negro sobre o corpo branco."

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra - a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente.
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada."
(em Água Viva)