quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Capítulo 3

Começou a esfriar. Pulei do muro.
- Preciso ir.
- Pra onde?
- Pra casa. Estou com frio.
- Vou contigo.
- Não. Vai pra tua casa. Nos vemos à noite.
- Não quero ir pra casa.
- E eu não quero responsabilidade nenhuma sobre as tuas decisões. Sinto falta de ti, do teu corpo, do teu cheiro, do teu sexo. Não de amor.
- Te vingas bem de mim dizendo inverdades.
- Não preciso disso.
Fui andando e logo em seguida tive que parar, pois havia ovelhas passando com alguém guiando. Esbarraste em mim, me segurando, porque vinhas logo atrás.
- Vem cá, quero te mostrar um lugar.
Entramos num boteco antigo, com o piso preto e branco já bastante gasto nos lugares de maior circulação. Havia bebidas expostas em prateleiras de vidro. Muitos espelhos. Móveis de madeira escura. Pegaste um vinho.
Seguimos pela rua, viramos à direita, descemos, chegamos em um lugar que parecia um celeiro...
Quando entramos, aquele cheiro de bicho me fez recuar. Riste.
- Vem cá, mulher urbana de pés descalços. Gosto mais de ti assim – me puxando pela cintura e dando um beijo no rosto.
O lugar estava quente do sol e pelas frestas das paredes e duas janelas redondas bem no alto, entrava uma luminosidade agradável.
Paramos em frente a um cercado onde havia uma égua lambendo o filhote. Lindos os bichos. De um marrom escuro, quase pinhão, brilhante. Ela chegou perto, eu fui pra trás. Passaste a mão nela como se fora uma velha conhecida e colocaste a minha também. Uma seda o pêlo do bicho.
- É tua?
- Não. O pequeno é. Gostava muito dessa potranca, nasceu o filhote, comprei.
- Para?
- Para te ensinar a cavalgar.
- Não me provoca...
- Queres?
Olhei desconfiada e com um olhar malicioso me ofereceste a garrafa de vinho para beber no gargalo.
Tomei um gole. Depois do sorvete causou um amargor na boca. O corpo ficou todo arrepiado.
- Chega. To com frio, preciso ir.
- Não, vem cá.
E num canto havia um monte de lã de carneiro, ovelha, não sei. Deitaste ali e ficaste me olhando. Estendeste a mão. Segurei. Sentei ao teu lado e nos beijamos.
Aquele monte de pêlo de bicho era aconchegante e quente. Tirei tua roupa passando as mãos por todos os espaços... te olhando... curtindo a nossa falta de pudor... e te ver no teu habitat te dava contornos diferentes, que nunca havia observado.
Bebi o vinho da tua boca e sorri, satisfeita com a descoberta... Tirei a minha, deitei ao teu lado... era agradável a sensação de maciez dos pêlos pelo corpo todo. Viraste pra mim, segurando a cabeça, sorrindo.
- Dá pra ser uma princesa assim?
Dei uma risada, um cheiro no teu pescoço e disse:
- Tu não prestas mesmo.
Virei teu corpo e subi em ti. Te deixei penetrar e... sentindo o meu corpo colado ao teu, aquietei.
Sempre preferi quando eu, e não tu, fico calada... porque quando estou calada, estou escondida dentro de mim... e quando te calas, preciso me esconder de mim...
- No que estás pensando?
- Na distância...
E comecei a me mexer lentamente como se tivesse de fato voltado de bem longe...

Pertencer

...se me distraio um pouco...
...uma sensação estranha invade meu peito...
...sinto como uma 'falta de pertencimento'...

Mitologia

Para que no futuro tenhamos profissionais cada vez melhores, como tão bem analisou o Paulo, cada um deve fazer a sua parte:

"A nossa linguagem está cheia de referências aos antigos mitos greco-romanos, de tanto que eles nos influenciaram. Quando dizemos que uma coisa é bacana, estamos fazendo uma alusão a Baco, o nome romano do rei do vinho. Se alguém recebe um presente de grego, isso é uma lembrança da Guerra de Troia. Se lança o pomo da discórdia, também é. Cada referência dessas remonta a toda uma história.
Falamos em ouvir o canto da sereia, em narcisismo, em complexo de Édipo, em caixa de Pandora, em calcanhar de Aquiles - e cada uma dessas expressões se refere a uma história grega diferente. Dizemos que uma coisa é uma verdadeira odisseia, que alguém está fazendo um esforço hercúleo, que o eco repete os sons - e com isso lembramos os personagens de Odisseus, Hércules ou a ninfa Eco. O oceano Atlântico lembra a Atlântida e o gigante Atlas, um vulcão era a chaminé da forja do deus Volcano, um labirinto era onde vivia o Minotauro, as olimpíadas prestam tributo aos deuses do Olimpo. Um desinfetante que se chame Ajax, uma revista de companhia aérea intitulada Ícaro, uma empresa de informática com a marca Medusa estão homenageando personagens mitológicos gregos - com muita pertinência, porque há na história de cada um deles uma explicação para a escolha desse símbolo. Uma foto erótica tem a ver com o deus Eros, um fenômeno psíquico recorda sua amada Psiquê, e qualquer coisa voluptuosa, se refer à filha deles, Volúpia. A deusa do amor, Afrodite, é lembrada nos afrodisíacos - e com seu nome romano, Vênus, deixou sua marca nas doenças venéreas. As artes marciais têm esse nome porque seu patrono é Marte, o deus da Guerra. Uma coisa hermética é como se fosse guardada por Hermes, mensageiro dos deuses, que não podia entregar suas mensagens a quem não fosse o destinatário. Um cronômetro, uma cronologia e uma doença crônica, aludem ao deus do tempo, Cronos - cujo nome romano, Saturno, batizou o dia de sábado em algumas línguas, como saturday, em inglês.
[...]
A lista seria interminável. Um delicioso catálogo do variadíssimo patrimônio que a mitologia clássica nos deixou. Uma mãe ou pai atento pode se divertir muito, revelando aos filhos as pistas dessa riqueza, brincando de uma espécie de caça ao tesouro cultural. Um professor criativo pode mobilizar sua turma durante muito tempo procurando vestígios gregos e romanos no nosso dia a dia.
Não saber nada disso é uma pena. Aprender tudo depois de adulto é uma tarefa pesada e sem graça. Porque não é assim que deve ser, como se fosse num dicionário. Mas ir aos poucos, desde criança, se familiarizando com rodas as histórias que estão no subterrâneo dessas referências, sem pressa, é um prazer e um enriquecimento para o espírito. Negar isso às futuras gerações é um desperdício absurdo, equivale a jogar no lixo um patrimônio valiosíssimo que a humanidade vem acumulando há milênios.
Outra maneira muito gostosa de apresentar à criançada essas histórias, num primeiro contato, é oralmente. O adulto que quiser ter a alegria de compartir uma narrativa dessas com os pequenos pode ler antes a história sozinho, para si mesmos, para lembrar ou ficar conhecendo. Depois, outro dia, conta ao filho (ou aluno, ou sobrinho) com suas próprias palavras, do jeito que lembrar. Em seguida, na ocasião oportuna, pode dar-lhe o livro de presente. É para sempre."
(em Como e por que ler os clássicos universais desde cedo, p. 29-30).

O casal Eros e Psiquê, na mitologia grega, foi o símbolo da união entre o amor carnal e a alma pura.
Na mitologia romana, o mesmo tema teve como personagens Vênus e Cupido.
De acordo com a mitologia grega, Afrodite (Vênus), ciumenta e vingativa, persuadiu Eros a fazer a infelicidade da jovem e encantadora Psiquê, personificação da alma. Com sua flecha, Eros deveria despertar amor, na imaculada Psiquê, pelo mais horrendo dos homens. Eros, porém, apaixonou-se pela ancantadora criatura. Comovido com a paixão dos jovens, Júpter, o deus dos deuses, protegeu-os das iras de Afrodite.
Esta bela lenda grega descreve de maneira sublime a união dos contrastes, de Eros e Psiquê;
ou seja, do amor sexual com a alma pura.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Música

"Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. É também com o corpo todo que pinto meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo a corpo comigo mesma. Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro."
(Água Viva, p. 10)

Capítulo 2

Não tinha levado roupas, então pedi emprestado para a morena que me disse se chamar Paloma e ser a dona do lugar. Com ela andavam sempre uma ou duas moças bonitas, com o mesmo jeito colorido de vestir e um ar malicioso de quem está sempre a provocar, não tem nada a temer e é feliz.
Lembro ter pensado não acreditar teres me levado a um puteiro, mas concluí que era ali mesmo que me querias e eu pouco me importava.
Vesti uma camisa vermelha e uma saia franzida, de um colorido impressionante. Me senti integrada à paisagem. Já era dia quando saí. Estava descalça.
Havia algum tipo de festa na cidade. Bandeirolas por todo o lugar. Parei na frente da pequena Igreja da praça. Entrei. No meio havia a imagem de uma santa pendurada, cujo manto de tecido dava para pegar de tão comprido e por isso tinha as bordas puídas. Sentei e rezei.
Quando saí, estavas na praça e quando me viste vestida daquele jeito abriste um largo sorriso. Retribuí e passei por ti. Perguntei se estavas bem, disseste que sim e ia seguindo meu caminho quando me seguraste pelo braço.
- Onde vais?
- Conhecer a cidade.
E fui.
Largaste alguma coisa que tinhas na mão e me seguiste.
- Não precisas ir comigo.
- Mas estás descalça.
- Eu sei.
- Não sabes cuidar de ti.
- Sei sim.
- Por que ficas me perturbando?
- Por que te deixas perturbar?
- Não sei, gosto de estar contigo.
- Eu também.
- Mas a minha vida é aqui, tu sabes.
- Sei.
- Então o que queres que eu faça?
- Nada. Eu fiz. Vim te ver.
- Vais me obrigar a tomar decisões que ainda não dou conta de sustentar.
- Não vou te obrigar a nada. Só não vou deixar de fazer o que quero por tua causa.
- Eu amo a minha mulher.
- E eu não tenho nada a ver com isso. Não estou te exigindo nada. Aliás, tu tomaste todas as iniciativas ontem depois que me viste.
- Eu sei... É que te vejo e penso no que se pode perder. E me deixas confuso. És puro desassossego. E perco a linha, fico desorientado... Com raiva de mim mesmo por ainda sucumbir a ti apesar da decisão de reconstruir.
- Sei que a rispidez a que me submetes é contigo mesmo. E não há nada que eu possa fazer. Só tu... me paga um sorvete?
Sentei numa mureta, fiquei balançando as pernas, e trouxeste um sorvete de cor esquisita, mas de um sabor maravilhoso... parecia maracujá... com groselha... fresco.
Ficamos lá lambendo vagarosamente vendo o movimento da praça... lembro bem do gosto... e das línguas...

Da noite

"Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus?
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?"
(Da Noite - 1992)

Sobre livros e leituras

"Pegar um livro e abri-lo guarda a possibilidade do fato estético. O que são as palavras dormindo num livro? O que são esses símbolos mortos? Nada, absolutamente. O que é um livro se não o abrimos? Simplesmente um cubo de papel e couro, com folhas; mas se o lemos acontece algo especial, creio que muda a cada vez."

Clássicos

Estou sempre preocupada com a educação do filhote.
Rateando em livrarias - prazer que a pequena já sente nos excelentes espaços infantis agora feitos especialmente para eles -, encontrei esse livro da escritora Ana Maria Machado, que tanto iluminou a minha infância.
Recomendo! Li num gole só!

"Como tornar a leitura um prazer? O que fazer para que crianças e jovens descubram no livro um cúmplice para grandes viagens? A escritora Ana Maria Machado nos apresenta uma bela cartografia da leitura - um passeio apaixonado pela literatura universal, apontando como e por que ler os textos clássicos, aqueles que nunca saem de moda e vêm fascinando gerações e gerações de leitores. Reunindo um elenco de personagens que deixaram sua marca na história, este livro se constitui num guia eficiente para a educação literária e sentimental de crianças, jovens - e adultos também."

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Capítulo 1

Fui ao teu encontro. De ônibus. Viajei um dia inteiro. Apesar de cansativa a viagem, a paisagem era bonita, de altas montanhas e campos cheios de pequenas flores de camomila.
A rodoviária estava vazia. O tempo úmido e abafado. Como cheguei à tarde, fui direto ao trabalho.
Levaste um susto ao me ver... depois me olhaste com desprezo e apontaste uma cadeira para que eu sentasse até que pudéssemos sair. O ambiente era frio. Alguns armários, mesas, tudo da mesma cor. Bege.
Na saída, nem uma palavra. Nada.
Andavas a passos largos, o que fazia com que eu tivesse que me esforçar para te acompanhar.
Estavas firme. Sério. Resoluto.
Caminhamos por algumas ruas, dobramos várias esquinas... lembro bem das luzes fortes dos postes nas esquinas e depois da escuridão em que emergia o calçamento... andamos por algum tempo e chegamos numa periferia que lembrava as de países latino-americanos de colonização espanhola.
Umas casas de palafita, de madeira, de colorido indefinido no meio da noite... muitos varais, alguns com roupa... o lugar era iluminado por poucas lâmpadas penduradas em desalinho...
Entramos numa casa que, através de portas, dava para outras.... tudo era de madeira e cheio de frestas pelas paredes.
Cumprimentaste com intimidade a mulher sentada na soleira, uma morena bonita, com os cabelos negros e compridos, vestida como se fosse uma “chicana”.
Me pegaste pela mão e fomos invadindo os quartos. No último havia uma varanda que dava para o rio.
Ali me encostaste na parede, e começamos a nos beijar com saudade. Saudade dos corpos, do cheiro, do gosto, do beijo... tiramos a roupa rapidamente e transamos ali mesmo, em pé.
Deitamos ambos, suados, numa cama simples, de colchão fino e desconfortável.
Me olhavas com aquele olhar calado de sempre.
E a mim me faltava eloquência. Era desejo satisfeito puro.
Ficamos ali por algum tempo... entrava uma brisa com odor estranho pela porta que dava pro rio.
Fechei os olhos e acordei contigo colocando a roupa.
- Onde vais?
- Preciso ir em casa.
E saíste.
Fiquei ali quieta, pensando em sair para conhecer a cidade.
[...]

Lágrimas ocultas

"Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!"

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Confesso

Ele: Te quero! Sem teorias... Nem sei explicar como, em que condição, não sei definir...
Ela:  ...
Ele: Era uma coisa tão mansa, aquele vinho que a gente guarda para uma data especial que não sabe se chegará... e agora virou...
Ela: Urgência.
Ele: Necessidade.

Angélica

"[...] Mas vejo, que por bela, e por galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo que me tenta, e não me guarda."

Do Desejo

"Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer."
( Do Desejo - 1992)

domingo, 26 de setembro de 2010

Clichê

Ela: Homens gostam de mulheres boazinhas, santinhas e comportadinhas?
Ele: Meninas boazinhas vão para o céu, meninas más vão para onde querem.
Ela: Disso eu sei. To perguntando sobre vocês.
Ele: Uma dama na sociedade...
Ela: Como isso é clichê! E machista! Vocês não evoluíram nada?
Ele: Mas é a real. Homens ficam inseguros se as mulheres são muito autônomas, ficam ciumentos, com coisas na cabeça....
Ela:  Mas tudo o que queremos são vocês por perto! Aprendendo ou ensinando... trocando. Essa insegurança é boba! Uma mulher respeitada, amada, bem comida, dificilmente vai procurar outro homem. Como vocês são bobos!

Os dois horizontes

"Dois horizontes fecham nossa vida:
Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro,—
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais;
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.

Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.

No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.

Que cismas, homem? – Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? – Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.
Dois horizontes fecham nossa vida."

Perfeição

A melhor combinação que pode existir
entre um homem e uma mulher é
um sentir prazer com o prazer do outro.

Questão

Vais me fazer pedir para que venhas?!
E se pedir, virás?

sábado, 25 de setembro de 2010

Presença

"É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te."

Felicidade

"No papel, em termos conceituais, é simples. Todo o sofrimento humano, não importa qual seja, resulta de uma incongruência entre a nossa vontade e desejos, de um lado, e o curso dos acontecimentos que nos afetam, de outro. Como lidar com a discrepância entre aspirações e realidade? Há dois modos básicos de reduzir ou anular essa incongruência. Um deles é adaptando e moldando os nossos desejos ao curso dos acontecimentos; e o outro é transformando as circunstâncias com que nos deparamos de modo a que atendam aos nossos desejos.
Os filósofos estóicos, como se sabe, eram grandes entusiastas do primeiro caminho. Como as circunstâncias com as quais nos deparamos não estão sob o nosso controle e como o mundo é regido por leis que independem de nossa vontade, só nos resta submeter e adaptar o que está à mercê da nossa vontade, ou seja, os nossos desejos e aspirações, ao curso dos acontecimentos. “O benéfico e o prejudicial”, observa o “iluminista cético” David Hume sobre esta estratégia, “tanto de ordem natural como moral, são inteiramente relativos ao sentimento e ao afeto humanos. Nenhum homem jamais seria infeliz se ele pudesse alterar os seus sentimentos; como Proteus, ele se furtaria de todos os ataques por meio das contínuas alterações de sua forma e feitio”. Ou como sugere Epicteto, o escravo coxo que abraçou o estoicismo e virou guru do imperador romano Marco Aurélio, “não são as coisas em si mesmas que inquietam os homens, mas as opiniões que eles formam sobre estas coisas”. A aceitação dos nossos limites pessoais e humanos, a autodisciplina interior e a pacificação dos desejos pela reflexão filosófica e a vida contemplativa são o segredo de uma existência plena, harmoniosa e serena. “Quereis só o que podeis e sereis onipotentes.” Amorfati.
Pois bem, onde fica o iluminismo? A estratégia iluminista, penso, é o avesso radical do ideal estóico. Em vez de buscar a libertação da tirania dos desejos sobre o espírito dos homens, tratava-se de libertar os desejos, ou seja, insuflar e dar livre curso a  certos impulsos e fantasias dos homens, especialmente no campo das aspirações de ganho monetário e consumo material, e de transformar o mundo para garantir a sua máxima satisfação. O ideal iluminista reflete, em suma, uma barganha faustiana — vender a alma ao demônio em troca de poder sobre o mundo. Ele representa uma aposta monumental na conquista da felicidade pela crescente, violenta e sistemática subjugação do mundo natural aos propósitos e caprichos humanos. A palavra de ordem é dominar a natureza. “No princípio era a ação.”
A referência de Priestley a Francis Bacon, no texto que foi distribuído, é perfeita. Foi na filosofia renascentista de Bacon e Giordano Bruno que surgiu esta idéia terrível de que torturando e bulindo experimentalmente com a natureza nós conseguiríamos arrancar dela os seus segredos; de que ao possuí-la e subjugá-la nós poderíamos vencer a escassez e submeter o mundo aos nossos desígnios e vontades; e de que desse modo poderíamos recriar pelo engenho e sagacidade um novo “jardim das delícias”, um paraíso tecnológico de turbinas, robôs, viagras e disneylândias no qual “o homem se faria a si próprio um deus sobre a Terra” (Bruno). As sementes plantadas no renascimento vingaram e medraram nesta ejaculação vulcânica da libido dominandi que foi o iluminismo europeu. A colheita, porém, não deu os frutos pretendidos."

Boi de Mamão

Acho que ninguém deveria perder, principalmente quem tem filhos pequenos!
"O Sumiço do Boi de Mamão", no Iguatemi, amanhã, às 15h, retirada de ingressos no Balcão de Informações, piso L1, a partir das 12h.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Amar você é coisa de minutos

"Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei, teu pão, tua coisa, tua rocha
Sim, eu estarei aqui..."

Foi um momento

"Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve!...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há uma coisa
Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?

Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz."

Inconfesso Desejo

"Queria ter coragem,
Para falar deste segredo,
Queria poder declarar ao mundo,
Este amor!
Não me falta vontade,
Não me falta desejo,
Você é minha vontade.
Meu maior desejo...
Queria poder gritar,
Esta loucura saudável,
Que é estar em teus braços,
Perdido pelos teus beijos,
Sentindo-me louco de desejo.
Queria recitar versos,
Cantar aos quatros ventos,
As palavras que brotam,
Você é a inspiração.
Minha motivação.
Queria falar dos sonhos,
Dizer os meus secretos desejos,
Que é largar tudo,
Para viver com você,
Este inconfesso desejo!"

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Pobres dos animais que têm que conviver com homens selvagens

"Sete elefantes morreram e um ficou ferido após serem atropelados por um trem no Estado de Bengala, no leste da Índia, informou a polícia local. Os animais tentavam cruzar a ferrovia quando foram atingidos por um trem de mercadorias.
O acidente ocorreu perto da localidade de Binnaguri, no distrito de Jalpaiguri, por volta de 23h15 locais de quarta-feira (14h45 em Brasília), quando os elefantes foram atropelados por um trem que circulava em grande velocidade, explicou uma fonte das forças de segurança à agência "PTI".
O grupo de elefantes se dirigia à floresta de Diana, vindos de outra zona florestal, a de Maraghat, mas dois filhotes ficaram presos nas vias.
Outros membros do grupo foram tentar resgatar os jovens animais, mas o trem chegou e matou cinco deles na mesma hora, deixando outros três feridos. Dois não resistiram e faleceram nesta quinta-feira.
As autoridades não informaram sobre nenhum dano ou descarrilamento do trem de mercadorias, apesar do impacto com os animais.
Após o acidente, outros 25 elefantes ocuparam a via férrea, fazendo com que a circulação fosse paralisada durante quase uma hora.
O tráfego ferroviário também foi interrompido nesta manhã no trecho que liga a cidade de Siliguri com o estado de Assam (nordeste do país), depois que outro grupo de elefantes impediu a circulação no local do acidente.
Um especialista do Instituto indiano de Vida Silvestre explicou que os elefantes, como espécies que vivem em grupo, têm "laços fraternais fortes" e lembrou que "são muito inteligentes".
"A combinação destes fatores e o fato de haver filhotes entre os mortos pode fazer com que reajam de uma maneira muito humana", como ocorreu quando se aproximaram do local do acidente. (tenho certeza que os elefantes, se pudessem se expressar, não gostariam da comparação)
Atropelamentos de elefantes por trens são relativamente comuns nesta região, pois a linha férrea interrompe o percurso que eles costumam seguir, segundo um dos guardas florestais que estiveram no local. (por que uma linha férrea interrompe o percurso dos animais?!)
De acordo com o governo, a Índia tem quase 28 mil elefantes selvagens, sendo que a maioria deles vive no sul e nordeste do país."

NO PROMISES

Das antigas, mas acordei com ela na cabeça...



“Com o corpo e o espírito leves, elas se entregam ao sonho, abandonando a nuca ou os pés a lentas massagens. Nessa atmosfera de refinada sensualidade, até as mais feias se sentem desejáveis." (Kenizé Mourad em Em Nome da Princesa Morta)

SHOW

A aguardada venda dos ingressos para o show do Black Eyed Peas em Florianópolis começa nesta quinta-feira. As entradas estarão disponíveis no site www.livepass.com.br e partir de sexta-feira podem ser adquiridas no escritório do El Divino Lounge, no centro da Capital.
Os preços do 1º lote variam de R$ 60 a R$ 120 nas cadeiras e de R$ 80 a R$ 400 na pista.
Outros pontos de venda devem ser anunciados na próxima segunda-feira.
O show do Black Eyed Peas, em Florianópolis, ocorre no dia 1º de novembro no estádio do Figueirense, Orlando Scarpelli.

"The smell of your skin lingers on me now..."
(Fergie)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ditados

Ultimamente tenho pensado muito em ditos populares e na profundidade ou absurdo de alguns deles. Resolvi compartilhar minhas angústias com vocês:

- Cavalo dado não se olha os dentes – Como assim?! Claro que se olha! E muito bem! Até pra ver se quem deu te considera ou estava de sacanagem com um “presente de grego” (sim, o Cavalo de Tróia!).
- O inferno de boas intenções está cheio – Custei a acreditar que muitas pessoas não compreendem esse ditado. Sim, o inferno está cheio de “bem intencionados”, porque quem quer mesmo, vai lá e faz acontecer... depois vai pro céu em paz (embora eu, particularmente, pretenda mesmo é ir pro inferno, porque o céu deve ser entediante!).
- Quem ama o feio, bonito lhe parece – Gosto desse. De fato os olhos do coração vêem o outro por dentro.
- A vingança é um prato que se come frio – Olha, não sei não. Talvez porque imediatamente não seja possível, mas acho que quem gosta de se vingar, gosta de fazê-lo na hora! Quanto mais quente melhor!
- Fica lá onde os gatos perdeu as botas – Eu já digo que é “lá onde o gato perdeu as cuecas”, porque se ele estava se despindo, por certo a última coisa que tirou foram as cuecas! Longe pacas!
- Quem tem boca vai a Roma – Quem tem boca fala e vai não só a Roma, mas onde quiser. Se não conseguir ir, pelo menos colocou tudo pra fora e não teve que voltar pra casa pra tomar um ansiolítico!
- Ele é o pai cuspido e escarrado – Horrível! Esculpido em carrara, como seria o correto, fica chiquérrimo! (carrara - tipo de mármore da cidade de Carrara, na Itália – o Davi, de Michelangelo, foi insculpido num pedaço desse mármore).
- Devagar se vai ao longe – E chega-se bem depois de todo mundo, né?! Ou quando a festa já acabou... Nada de moleza! Viva com vontade!
- Aqui se faz, aqui se paga – Concordo. Acho que a vida é o céu e o inferno de cada um de nós. Estamos condenados a escolher e arcar com nossas escolhas.
- Quem semeia vento, colhe tempestade – Até onde sei, não se vende vento em semente. Mas se você fez alguém ventar, depois aguente as consequências com a mesma hombridade! Nada de desculpas esfarrapadas!
- Mofas com a pomba na balaia! – Delícia! Não podia faltar um ditado em “manezês”! Como nunca soube a origem, fui atrás. O “pombeiro” era um personagem folclórico dos Açores e do litoral catarinense. Era o vendedor ambulante que vende de tudo um pouco: peixe, pombas, galinhas e perus. Carregava uma vara suportada pelos ombros, com duas balaias, uma em cada ponta, com as mercadorias a serem vendidas. As mercadorias eram mais baratas no início da caminhada para aliviar o peso. Um belo dia, numa negociação de venda de mercadorias teria surgido a folclórica frase na cidade de Florianópolis: “Mofas com a pomba na balaia” foi a resposta de uma mulher a um pombeiro que vendia pombas expostas num balaio ao discordar do preço da mercadoria e que por isso não iria levá-la e o pombeiro mofaria até conseguir vender o bicho.
E “quem quiser que conte outra"!

Da observação


“Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...”

7 Pecados

Recordo-me bem que dos livros da coleção Plenos Pecados os que mais gostei foram, indubitavelmente: Inveja - O mal secreto e Luxúria - A casa dos budas ditosos, escritos, respectivamente, por Zuenir Ventura e João Ubaldo Ribeiro.
E é deste que quero falar.
Como diria Marilena Chauí:
"Dos sete pecados capitais, a Luxúria é o mais terrível, porque é o mais sedutor e porque dela nascem os outros seis ou por ela são eles estimulados." (em Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida).
Concordo em gênero, número e grau! Preguiça, gula, inveja, ira, avareza ou soberba combinados com a luxúria podem proporcionar deliciosas sensações poucas vezes experimentadas ou sentimentos de extrema complexidade. E cada uma das combinações, por si só, renderia boas postagens.
O desejo carnal satisfeito seguido de uma bela sessão de preguiça...
Gula por deliciosidades desfrutadas na cama...
Inveja do desregramento alheio...
Isso pra não falar nas acaloradas discussões que renderiam a análise sobre a liberdade de corpo, mente e espírito que os protagonistas têm que ter para se lançar em determinadas aventuras do gênero, ocupando-se apenas do desejo da carne.
Sim, a culpa é o oitavo pecado capital!
Bem, o fato é que João Ubaldo se arriscou não pela escolha da temática, mas por optar por escrever como se fora mulher. Sob esse ângulo o livro foi alvo de muitas críticas, algumas delas bastante pertinentes.
A mim me parece que na produção literária em que mulheres são autoras há uma liber(t)ação do corpo, que aparece desligado das amarras psicológicas, sociais ou culturais que o aprisionam. Fala-se do prazer e a mulher deixa de ocupar o lugar do silêncio, da ausência, passando a ser sujeito dos textos através da fala, do discurso, da escrita. Embora trate de valorizar o corpo feminino, imprime na escrita um mundo de experiências próprias, nem sempre aceitas pelo sistema patriarcal.
(E aqui não estou tomando como exemplo o "A vida sexual de Catherine Millet" que até quem se considera ultra-super-hiper-giga-mega-master liberal quando o assunto é sexo, considera as experiências, relatadas pela autora como autobiográficas, inverossímeis)
Então como um homem poderia falar do desejo de uma mulher ou vice-versa?
Isso não parece possível sequer sem a troca de gênero!
Alguns temas, particularmente, exigem conhecimento empírico para serem abordados, sob pena de o gênero (e 'otras cositas más') revelar-se na escrita.
Recentemente fui desafiada a fazer o mesmo, ao avesso. Não consegui; me revelei a cada linha. Há muito de mim no que escrevo. Há muito do meu corpo, do meu prazer, da minha experiência como fêmea. Há muito de mulher.
As opiniões foram as mais variadas: de que era um homem escrevendo para agradar a uma mulher; de que eu sou muito fêmea, com os hormônios saindo por todos os poros e isso transparece no texto; que quem me conhecia bem sabia o quanto de mim havia naquela crônica.
Valeu, porque me diverti!
Constatei que uma mulher definitivamente não sabe como fala o falo. 
Mas, enfim... ainda assim o livro é delicioso e queria ter assistido à interpretação da personagem pela Fernanda Torres no teatro e em Sampa, 'of course'. Pena que geralmente falte companhia, às vezes grana e eventualmente tempo.
Por fim, para que cada um tire suas próprias conclusões, segue um trecho em que a protagonista do livro relata a fantasia que nutria para o momento de seu desvirginamento:
"E então chega o momento tão ansiado. Sem pronunciar uma palavra, ele fecha a boca da donzela com um beijo decidido entre seus bigodes másculos, insinua seus quadris, delicada mas firmemente, entre as coxas dela e dirige a glande inturgescente para o hímen, então trêmulo e lubrificado pelos fluidos naturais da vagina. Resoluto, ele se assegura, às vezes com a ajuda das mãos, de que está no ponto certo e então, enquanto ela dá um gemido abafado, entre a dor e o prazer da fêmea que finalmente cumpre seu destino biológico, penetra-a com um só impulso vigoroso, abre-lhe mais as pernas, inicia um movimento de vai-e-vem profundo e, finalmente, derrama-lhe nas entranhas o morno líquido vital, sem o qual ele não é nada, ela não é nada." (p. 58)
(Atentem aos adjetivos e advérbios utilizados para descrever o macho e a fêmea!)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Das Ideias


“Qualquer idéia que te agrade,
Por isso mesmo... é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro de ti se achava inteiramente nua...”

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Ideias

"Não posso esperar que alguém me dê a liberdade. A liberdade tem de ser construída por nós mesmos. Como? Cada qual tem de descobrir por si só. Minha liberdade eu construo escrevendo, pintando, mantendo a minha visão simples do mundo, espreitando na selva como um animal, impedindo as intromissões na minha vida privada. O essencial para o homem é a liberdade. Interior e exterior. Atrever-se a ser você mesmo em qualquer circunstância e lugar. A liberdade é como a felicidade: não chega nunca. Nunca se tem completa. É só um caminho. A gente caminha atrás da liberdade e da felicidade. E assim se vive. É só a isso que se pode aspirar."

"Quem inventa as proibições? Alguém inventa por conveniência própria e decide por você: ¨Pode fazer isto, não pode fazer aquilo. Aquele outro faz mal. A moral é isto e o imoral¨…ah, já me foderam muito a vida com leis e proibições e ordens. Me encheram o saco com essas histórias de moral, de ética, do correto, do incorreto. E você enfim descobre que esses senhores vivem como deuses do Olimpo e dissipam tudo no meio do luxo. Mas fazem tudo em segredo, para que ninguém veja, e em público continuam fazendo promessas e o futuro será melhor."

"Muitas vezes o sujeito tenta mudar a vida, ter mais controle, prever alguma coisa. Saber as consequências de uma decisão. Mas não. Somos como essas formigas loucas que correm no jardim e tropeçam umas nas outras, perdendo o rumo uma vez ou outra."
(Pedro Juan Gutierrez em Animal Tropical)

Fantasia

Insatisfeita por ser só amada,
Exige a dor verdadeira e falsa:
"Tira essa calça! Toma, sua puta,
Vadia safada!"

De uma perversão deliciosa,
Mulher que apanha porque quer,
Boba, que não é.
E sim, ambiciosa.

domingo, 19 de setembro de 2010

Tríades

Lendo o blog do Alexandre, fiquei pensando sobre o assunto e concluí que parte dos nossos grandes questionamentos e parcas convicções se baseiam em algumas delas:
Id, ego e superego
Sexo, amor e traição
Lei, lide e (inter)mediação
Cama, mesa e banho
Eu, tu e ele(a)
Pai, Filho e Espírito Santo
Razão, emoção e reflexão
Homo, Hétero e Bi
Samba, suor e cerveja
Adão, Eva e o Paraíso
Sempre ouvi falar que amizade a três nunca dava certo. É fato. Sempre alguém pende mais para um lado. Já algumas trindades podem ser adoráveis, perturbadoras, complementares, necessárias. A questão é que a existência do terceiro proporciona um (des)equilíbrio, um resultado, uma visão, bastante singulares das coisas. Um (des)equilíbrio, às vezes tênue, por outras, avassalador, outras, ainda, fundamental, que talvez apenas o duo não viabilizasse, pois tornaria tudo simples demais, nos fazendo maniqueístas, simplistas, reduzindo demais nossa humanidade.
É inquietante...

Leitura infantil (?!)

"Um velho e um menino seguiam pela estrada montados num burro. Pelo caminho, as pessoas com as quais cruzavam diziam:
─ Que crueldade a desses dois! Querem matar o burro!
O velho, impressionadíssimo com os comentários, mandou o menino descer. Mais adiante, outras pessoas, observando a cena, diziam:
─ Que velho malvado, refestelado no burro, e o menino, coitado, andando a pé!
O velho, então, desceu do burro e mandou o menino montar. Daí a pouco, outras pessoas, vendo a cena, comentaram:
─ Onde já se viu coisa igual? Um menino cheio de vida, montado no burro, e o velho a caminhar pela estrada!
Depois dessa, o velho não teve dúvidas. Mandou o menino descer e ambos, com esforço, passaram a carregar o burro.
Está claro que os comentários não se fizeram demorar, e desta vez seguidos de gargalhadas. Evidentemente, todo o mundo estranhava os dois carregarem o burro."
(La Fontaine)

sábado, 18 de setembro de 2010

Da Realidade

"O sumo bem só no ideal perdura...
Ah! Quanta vez a vida nos revela
Que ‘a saudade da amada criatura’
É bem melhor do que a presença dela...”
"Tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras; sou irritável e piro facilmente; também sou muito calma e perdôo logo; não esqueço nunca; mas há poucas coisas de que eu me lembre; sou paciente, mas profundamente colérica, como a maioria dos pacientes; as pessoas nunca me irritam mesmo, certamente porque eu as perdôo de antemão; gosto muito das pessoas por egoísmo: é que elas se parecem no fundo comigo; nunca esqueço uma ofensa, o que é uma verdade, mas como pode ser verdade, se as ofensas saem de minha cabeça como se nunca nela tivessem entrando? Tenho uma paz profunda, somente porque ela é profunda e não pode ser sequer atingida por mim mesmo; se fosse alcançável por mim, eu não teria um minuto de paz; quanto a minha paz superficial, ela é uma alusão à verdadeira paz; outra coisa que esqueci é que há outra alusão em mim - a do mundo grande e aberto; apesar do meu ar duro, sou cheia de muito amor e é isso o que certamente me dá uma grandeza...”

Filhos




"Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois tu és já toda a minha vida!"

Coisas de mulheres

As mulheres de hoje, em geral, não sabem mais cozinhar e não fazem questão de aprender. Acham difícil, supérfluo e desinteressante. E realmente está tudo tão 'fast food', e temos ficado tão sozinhos, que muitas vezes dá preguiça mesmo de ir pilotar um fogão. Ainda há mais, porque temos que ser tão magras, elegantes e contidas na comida que deixou de ser prazer.
De minha parte, desde muito pequena gosto de comida e de cozinha. Vem um pouco de família, porque a ascendência germânica e portuguesa certamente colaborou pra isso... e o "aconchego" da comida da minha avó é indescritível! Ela e as irmãs (há anos atrás, obviamente), reuniam-se em torno de grandes mesas e preparavam verdadeiros banquetes! Ou quase uma fabriqueta de biscoitos, ou cucas, ou massas... tudo feito em série, em grande quantidade e no braço! Tudo em meio a muita folia, conversa e discussão.
Lembro bem que desde cedo meu gosto também foi estimulaldo pela Ofélia, uma outra gordinha cujo nome não lembro e pela Ana Maria Braga, quando ainda não era global.
Com a profissionalização vieram os grandes "chefs"! Sim, porque homem não é cozinheiro, é "Cheff"!
Merecemos, mesmo!
Anyway, eles têm seu valor. Ver o Alex Atala em ação; o Olivier Anquier com aquele sotaque delicioso fazendo comidinhas (que homem é aquele, meu Deus?!); Emmanuel Bassoleil, Claude Troigrois, até mesmo o caçula Jamie Oliver, é um prazer inenarrável!
Mas se a intenção é prazer mesmo, vá a uma das padarias do Benjamim Abraão (a de Higienópolis - Sampa/SP é maravilhosa)! Esse sim, na minha opinião um legítimo CHEFE, que a essas alturas comanda a cozinha do céu com toda a humildade que lhe era tão peculiar!
Bem, pelo menos temos alguns destaques femininos na área hoje, como é o caso das 'Chefs' Roberta Sudbrack (sim, começou a ganhar fama no Palácio do Planalto), Benê, Flávia Quaresma, Morena Leite... para ficar só no país, pois se eu começar a falar da Nigella!
Houve um tempo em que dizia que largaria tudo e iria pra França fazer a Le Cordon Bleu! E a vida toma outro rumo e a liberdade fica cada vez mais restrita...
Enfim... o fato é que sempre AMEI cozinhar. É meu hobby mesmo. Me ver na cozinha é ter certeza de que estou em paz, feliz comigo mesma. A alquimia, os pequenos detalhes, os segredos da culinária, sempre despertaram minha curiosidade, provocaram meus sentidos.
Fiz alguns cursos, umas experiências, leio muito sobre o assunto e tenho bons livros sobre.
Então, como essa semana rolou uma Torta de Banana (que fiz com a "ajuda" da minha pequena, em quem estou plantando a sementinha do prazer pela cozinha); uma Cheesecake para uma amiga querida que está indo embora e uma Delícia de Uva Itália (no caso substituída por morangos sem agrotóxicos de Urubicity) para uma amiga que é um doce e veio a minha casa pela primeira vez, formou-se o "alvoroço".
Receitas pra lá e pra cá e pela enésima vez me pediram que desse um curso. Afinal, "mesmo seguindo a receita, nunca fica igual a tua!"
Então tá. Decidi preparar um curso - as amigas de Floripa vão subir a serra só pra me matar, mas... tenham compaixão de mim... não há mto o que se fazer por aqui, vocês sabem disso!
Bem, o fato é que no debate sobre o cardápio, algumas delas, que sequer sabem fazer arroz, já queriam partir da Moqueca.
Assim, antes que virasse um jantar de reis, ou para um Batalhão (e até teríamos audiência, pois o 10º BEC fica aqui em Lages... hahahah), delimitei em um doce e um salgado por noite.
As opções geraram a maior discussão, comigo afirmando que não se pode fazer dois pratos de muita complexidade, sob pena de terminarmos no meio da madrugada. Um tem que ser mais fácil e outro pode ser mais complicado.
Então (saca só!), na primeira aula, teremos: Bobó de Camarão e Apfelstrudel.
What?!?!?! A democracia é mesmo uma merda! hahhahah
O Bobó é circunstancial, pois como a aula será na quinta que vem, teremos um fornecedor de camarões frescos - fundamentais para o sucesso do prato.
E o Strudel foi uma briga. Explico. É que quem conhece, sabe: demoooooora! A massa, depois de feita (e isso já demora um bocado até acertar o ponto), deve ser dobrada, deixada a descansar, dobra, deixa descansar, dobra, deixa descansar. Então, ou elas acompanhariam simplesmente a feitura da massa ou as dobraduras. Impossível. Vetei na hora!
Eis que surge a ideia genial: "Lú, não dá pra fazermos com massa folhada pronta?!"
hahahhahah
Ainda bem que não sou profi, pois provavelmente teria um chilique!
Uma delas esclareceu: "Nossa, se eu souber fazer um strudel com massa pronta mesmo, já será uma glória!"
E como tudo na vida é uma questão de adaptação, ensinarei a fazer o recheio pra massa folhada...
Meninas, me divirto com vcs!
E ter dez mulheres em volta da minha mesa da cozinha será uma delícia!
Uma delas comprometeu-se a trazer o champã!
Imagina só no que vai dar!!!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O mundo aos olhos do "Animal Tropical"

"EM ALGUMAS igrejas de Roma, as pessoas que querem se confessar colocam moedas numa máquina e falam de seus pecados. Quando terminam, a máquina lhes impõe a penitência que possibilita expiar suas culpas.
Num hospital das Ilhas Canárias, alguns atendimentos aos pacientes são feitos por robôs, embora se saiba perfeitamente que um doente necessita do cuidado e do contato humano, que pode ser tão importante quanto - ou mais do que - os medicamentos. A lista poderia ser interminável. Todo dia, as máquinas invadem mais territórios humanos. E conseguem separar ou isolar mais as pessoas. Cada um se encápsula em sua pequena galáxia e tenta esquecer o resto.
Há explicações sociológicas bem convincentes para esta universalização da solidão. Mas eu diria que é mais um tema europeu e norte-americano. Um assunto típico dos países ricos. A solidão metafísica que todos sentimos alguma vez e que, inclusive, buscamos e desejamos, de tempos em tempos, é outra coisa, inerente à natureza humana mais profunda.
Falo da solidão que não se deseja. Da solidão doentia, típica da modernidade. Tenho tido a sorte de viajar pela Europa nos últimos 25 anos e me senti mordido ferozmente pela solidão na Suécia e na Alemanha, que, por acaso, são dois dos países mais ricos do mundo.
Ante essa solidão corrosiva a gente se sente indefeso e, então, sai em busca de companhia. E nem sempre se encontra com outra pessoa, porque cada um está encapsulado em sua própria caverna, ocupado em ganhar dinheiro ou seja lá o que for. Então, que se pode fazer? Como escapo da solidão que me inunda em seu silêncio deprimente?
Não quero falar da Suécia, porque em meu romance Animal tropical respondo a essa pergunta. Mas há uma pequena cidade da Saxônia, no sudeste da Alemanha, que visito anualmente no verão. Chama-se Chemnitz e é uma cidade antiqüíssima. Por ali passava a Rota do Sal na Idade Média. Me hospedo na casa de um amigo, pintor e escultor e, na maior parte do tempo, fico sozinho. Ouço música, pinto, vejo filmes pornô e os canais internacionais e revejo vez por outra as inscrições antigas em um lapidarium que fica a dois passos da casa. Também visito à tarde o bar Bukowski e porno-shops. Bebo uma dose de uísque e às vezes olho as fotos de Bukowski nas paredes. Fico entediado. Saio e olho de longe as putas alemãs e polacas que pululam lá fora, em frente às porno-shops. Não poderia me deitar com nenhuma delas, nem que me pagassem muito bem - tenho alma e vocação de dono, jamais de cliente - porque me parecem demasiadamente incolores e insípidas para meu gosto. Depois, continuo caminhando e vou a uma enorme área onde vendem carros usados muito atraentes, com apenas 40 mil quilômetros rodados e preços em torno de US$ 500. Assim passo o dia. Sem falar. Às vezes, de noite, encontro meu amigo em casa e conversamos um pouquinho. Bebemos vinho, fumamos tabaco cubano, ouvimos salsa cubana, recordamos as mulatas cubanas e sofremos saudade de Cuba. ''Sou alemão de nascimento, italiano pelo sangue paterno e cubano de coração'', diz meu amigo.
Isso é tudo. Resisto um mês ou pouco mais a essa monotonia e me parece um ano. Às vezes consigo afinal vender alguns quadros e em seguida regresso à pequena casa.
Na Suécia, na Noruega, tem sido pior ainda esta sensação de que sou um átomo absolutamente solitário vagando na atmosfera do planeta, flutuando no ar."

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O nosso mal-estar amoroso




Faltam homens ou mulheres? E quem está querendo só pegação: os homens ou as mulheres?



NA SEMANA PASSADA, graças ao IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, migre.me/1hb92), aprendemos que, em média, no país, há 105 homens solteiros por cada cem mulheres com o mesmo estado civil.
Claro, em cada Estado a situação é diferente. No Distrito Federal há mais solteiras do que solteiros, no Rio de Janeiro dá empate e Santa Catarina é o paraíso das mulheres (122 solteiros por cada cem solteiras). De qualquer forma, no Brasil como um todo, é impossível afirmar que "faltam homens no mercado".
A Folha, na última quinta (9/9), entrevistou algumas mulheres; uma delas comentou: pouco importa que haja mais homens do que mulheres, o problema é que os homens, depois de um encontro ou dois, dão "um chá de sumiço". Ou seja, pode haver muitos homens, mas eles só querem pegação.
No domingo passado, um leitor escreveu à ombudsman do jornal para protestar: segundo ele, quem não quer nada sério são as mulheres, que são "fúteis e fáceis", salvo quando o homem começa "a conversar sobre algo sério", aí ELAS dão o tal chá de sumiço.
Em suma, faltam homens ou mulheres? E, sobretudo, números à parte, quem está querendo só pegação: os homens ou as mulheres?
Acredito na queixa dos dois gêneros. Resta entender como é possível que a maioria tanto dos homens quanto das mulheres sonhe com relacionamentos fixos e duradouros, mas encontre quase sempre parceiros que querem apenas brincar por uma noite ou duas. Se homens e mulheres, em sua maioria, querem namorar firme, como é que eles não se encontram?
Haverá alguém (sempre há) para culpar nosso "lastimável" hedonismo -assim: todos esperamos "naturalmente" encontrar uma alma gêmea, mas a carne é fraca.
Homens e mulheres, desistimos da laboriosa construção de afetos nobres e duradouros para satisfazer nossa "vergonhosa" sede de prazeres imediatos.
Os ditos prazeres efêmeros nos frustram, e voltamos de nossas baladas (orgiásticas) lamentando a falta de afetos profundos e eternos.
Obviamente, esses afetos não podem vingar se passamos nosso tempo nas baladas, mas os homens preferem dizer que é por culpa das mulheres e as mulheres, que é por culpa dos homens: são sempre os outros que só querem pegação.
De fato, não acho que sejamos especialmente hedonistas. E o hedonismo não é necessário para entender o que acontece hoje entre homens e mulheres. Tomemos o exemplo de um jovem com quem conversei recentemente:
1) Com toda sinceridade, ele afirma procurar uma mulher com quem casar-se e constituir uma família.
2) Quando encontra uma mulher que ele preze, o jovem sofre os piores tormentos da dúvida: será que ela gostou de mim? Por que não liga, se ontem a gente se beijou? Por que ela leva tanto tempo para responder uma mensagem?
Essa mistura de espera frustrada com desilusão é, em muitos casos, a razão de seu pouco sucesso na procura de um amor, pois, diante das mulheres que lhe importam, ele ocupa, inevitavelmente, a posição humorística da insegurança insaciável: "Tudo bem, você gosta de mim, mas gosta quanto, exatamente?" Se uma mulher se afasta dele por causa desse comportamento, ele pensa que a mulher só queria pegação.
3) Quando, apesar dessa dificuldade, ele começa um namoro com uma mulher de quem ele gostou e que também gostou dele, muito rapidamente ele "descobre" que, de fato, essa nova companheira não é bem a mulher que ele queria.
4) Nessa altura, o jovem interrompe a relação, que nem teve tempo de se transformar num namoro, e a mulher interpreta a ruptura como prova de que ele só queria pegação.
Esse padrão de comportamento amoroso pode ser masculino ou feminino. Ele é típico da cultura urbana moderna, em que cada um precisa, desesperadamente, do apreço e do amor dos outros, mas, ao mesmo tempo, não quer se entregar para esses outros cujo amor ele implora.
Em suma, "ficamos" e "pegamos", mas sempre lamentando os amores assim perdidos, ou seja, procuramos e testamos ansiosamente o desejo dos outros por nós, mas sem lhes dar uma chance de pegar (e prender) nossa mão. Esse é o roteiro padrão de nosso mal-estar amoroso.
Para quem gosta de diagnóstico, é um roteiro que tem mais a ver com uma histeria sofrida do que com o hedonismo.