quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Que venha o novo ano!


2010, o ano da virada!
Para todos nós, amém!
Até lá!!!
Beijos!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Frenética Preguiça - por Patrícia Travassos

Belinha acordou às seis, arrumou as crianças, levou-as para o colégio e voltou para casa a tempo de dar um beijo burocrático em Artur, o marido, e de trocarem cheques, afazeres e reclamações. Fez um supermercado rápido, brigou com a empregada que manchou seu vestido de seda, saiu como sempre apressada, levou uma multa por estar dirigindo com o celular no ouvido e uma advertência por estacionar em lugar proibido, enquanto ia, por um minuto, ao caixa automático tirar dinheiro.
No caminho do trabalho batucava ansiedade no volante, num congestionamento monstro, e pensava quando teria tempo de fazer a unha e pintar o cabelo antes que se transformasse numa mulher grisalha.
Chegando ao escritório, foi quase atropelada por uma gata escultural que, segundo soube, era a nova contratada da empresa para o cargo que ela, Belinha, fez de tudo para pegar, mas que, apesar do currículo excelente e de seus anos de experiência e dedicação, não conseguiu. Pensou se abdômen definido contaria ponto, mas logo esqueceu a gata, porque no meio de uma reunião ligaram do colégio de Clarinha, sua filha mais nova, dizendo que ela estava com dor de ouvido e febre. Tentou em vão achar o marido e, como não conseguiu, resolveu ela mesma ir até o colégio, depois do encontro com o novo cliente, que se revelou um chato, neurótico, desconfiado e com quem teria que lidar nos próximos meses.
Saiu esbaforida e encontrou seu carro com pneu furado.
Pensou em tudo que ainda ia ter que fazer antes de fechar os olhos e sonhar com um mundo melhor. Abandonou a droga do carro avariado, pegou um táxi e as crianças.
Quando chegou em casa, descobriu que tinha deixado a porra da pasta com o relatório que precisava ler para o dia seguinte no escritório!
Telefonou para o celular do marido com a esperança que ele pudesse pegar os malditos papéis na empresa, mas a bosta continuava fora de área.
Conseguiu, depois de vários telefonemas, que um motoboy lhe trouxesse a porra dos documentos.
Tomou uma merda de banho, deu a droga do jantar para as crianças, fez a porcaria dos deveres com os dispersos e botou os monstros para dormir.
Artur chegou puto de uma reunião em São Paulo, reclamando de tudo. Jantaram em silêncio. Na cama ela leu metade do relatório e começou a cabecear de sono. Artur a acordou com tesão, a fim de jogo. Como aqueles movimentos estavam cada vez mais raros no casamento deles, ela resolveu fazer um último esforço de reportagem e transar. Deram uma meio rápida, meio mais ou menos, e, quando estava quase pegando no sono de novo, sentiu uma apalpadinha no seu traseiro com o seguinte comentário:
- Tá ficando com a bundinha mole, Belinha... deixa de preguiça e começa a se cuidar...
Belinha olhou para o abajur de metal e se imaginou martelando a cabeça de Artur até ver seus miolos espalhados pelo travesseiro! Depois se viu pulando sobre o tórax dele até quebrar todas as costelas! Com um alicate de unha arrancou um a um todos os seus dentes depois deu-lhe um chute tão brutal no saco, que voou espermatozóide para todos os lados!
Em seguida usou a técnica que aprendeu num livro de auto-ajuda: como controlar as emoções negativas. Respirou três vezes profundamente, mentalizando a cor azul, e ponderou. Não ia valer a pena, não estamos nos EUA, não conseguiria uma advogada feminista caríssima que fizesse sua defesa alegando que assassinou o marido cega de tensão pré-menstrual...
Resolveu agir com sabedoria. No dia seguinte, não levou as crianças ao colégio, não fez um supermercado rápido, nem brigou com a empregada. Foi para uma academia e malhou duas horas. De lá foi para o cabeleireiro pintar os cabelos de acaju e as unhas de vermelho. Ligou para o cliente novo insuportável e disse tudo que achava dele, da mulher dele e do projeto dele. E aguardou os resultados da sua péssima conduta, fazendo uma massagem estética que jura eliminar, em dez sessões, a gordura localizada.
Enquanto se hospedava num spa, ouviu o marido desesperado tentar localizá-la pelo celular e descobrir por que ela havia sumido.

Pacientemente, não atendeu. E, como vingança é um prato que se come frio, mandou um recado lacônico para a caixa postal dele.
- A bunda ainda está mole. Só volto quando estiver dura. Um beijo da preguiçosa...
(Do livro: Este sexo é feminino)

domingo, 27 de dezembro de 2009

Presa


E acaba-se desdenhando a caça,
Pela louca aventura da caçada...

sábado, 26 de dezembro de 2009

Inconsciente e impermanência

A busca pelo conhecimento de si e a abordagem holística do ser humano e do mundo são apenas alguns dos aspectos comuns entre psicanálise e budismo (por Benilton Bezerra Jr.)


A busca pelo conhecimento de si e a abordagem holística do ser humano e do mundo são apenas alguns dos aspectos comuns entre psicanálise e budismo

Que pode haver em comum entre uma tradição religiosa de 25 séculos nascida na Índia uma sociedade de castas altamente hierarquizada e marcada pela visão holística do mundo e uma prática clínica inventada na Europa há pouco mais de 100 anos, surgida como expressão de uma cultura laica, racional e individualista? Se prestarmos atenção aos percursos históricos, aos vocabulários, a práticas e rituais e a certos objetivos específicos desses dois campos, podemos ver budismo e psicanálise como universos muito distintos: de um lado espiritualidade, contemplação e desapego ao eu, de outro teorias leigas, dispositivos clínicos e uma prática voltada para a ampliação da capacidade normativa do sujeito. No entanto, um olhar mais atento perceberá que por trás das aparentes diferenças há algumas afinidades muito importantes. Podemos citar pelo menos quatro.
O ponto de partida na experiência: tanto o budismo quanto a psicanálise partem da descrição e compreensão da experiência para desvelar a Natureza , o funcionamento do eu e para encontrar formas mais interessantes de lidar com os problemas. Aí se percebe um colorido fenomenológico comum a ambas as tradições porque seu centro (o que está sempre em questão, sendo observado e descrito) não é uma suposta natureza objetiva, acabada e independente é a experiência de si, do mundo, das relações com os outros, o modo como vivenciamos e interagimos com esses fenômenos.
A ênfase na ação: embora tenham produzido teorias complexas e arquiteturas conceituais muito sofisticadas, budismo e psicanálise são fundamentalmente saberes ligados a práticas, formas de intervir na existência. Tal como a filosofia era vista na Antigüidade, budismo e psicanálise são hoje instrumentos para agir no mundo, mais do que para simplesmente conhecê-lo. De ambos se poderia dizer o que o filósofo francês Georges Canguilhem disse a propósito da produção de conhecimento na medicina: o pathos precede o logos. É porque sofremos que somos instados a criar formas de descrever o eu, o mundo e a vida de modo que possamos transformar nossa existência, tornando-a mais interessante e digna de ser vivida.



Sofrimentos nos impulsionam a procurar maneiras de descrever o funcionamento humano e a relação com o mundo; alguns tentam encontrar as respostas na religião

O horizonte ético: em ambas as tradições, a reflexão teórica e as práticas delas decorrentes apontam necessariamente para uma mudança nas referências que configuram a maneira de conceber e viver a vida. O conhecimento de si está a serviço da transformação de si, voltada para a construção de uma vida mais criativa e livre de condicionamentos. Tanto no budismo quanto na psicanálise não faz sentido separar epistemologia e ética. Conhecer muito bem a história e os conceitos da doutrina de Buda não faz de ninguém budista. O que define alguém assim é a sua experiência (busca da iluminação por meio da compreensão do vazio e do cultivo da compaixão) e não os fundamentos teóricos que alguém é capaz de dominar. De modo semelhante, é possível que alguém freqüente o divã por anos a fio, a ponto de dominar o uso dos conceitos freudianos para descrever a si mesmo e suas relações com a vida sem que isso signifique que análise tenha de fato ocorrido. Esta só acontece quando tem lugar uma reorganização psíquica que testemunha uma transformação no modo como o sujeito se posiciona frente a seu desejo, a seus ideais e às expectativas e injunções que incidem sobre ele.
A perspectiva ecológica: tanto o budismo como a psicanálise rompem dualidades muito típicas do modo de pensar tradicional no Ocidente, que opõe sujeito e objeto, cérebro e mente, corpo e ambiente, interno e externo, eu e outro. Na perspectiva dos herdeiros de Buda e de Freud, cérebro, mente e mundo são vistos não como realidades independentes, mas como aspectos ou pontos de vista de uma mesma realidade, descritos com vocabulários diferentes. Estão, portanto, completamente imbricados uns nos outros, interagindo e influindo reciprocamente o tempo todo. A mente ou a experiência subjetiva emerge da ação do corpo no ambiente, é inscrita corporalmente (embodied) e está ancorada (embedded) no mundo físico e simbólico com o qual sustenta uma relação de afetação recíproca permanente. Budismo e psicanálise são, portanto, incompatíveis tanto com descrições mentalistas (nas quais o corpo é mero suporte da atividade do espírito) quanto com o reducionismo materialista, no qual a experiência de si é reduzida a seus correlatos biológicos ou físicos (depressão nada mais é do que disfunção de neurotransmissores).
É curioso observar como a ênfase na ação e nesta visão holística ou ecológica vem encontrando ressonância e tendo sua importância confirmada por estudos em várias áreas do conhecimento científico: investigações empíricas da psicologia do desenvolvimento, estudos sobre percepção com base nas teorias ecológicas do self, pesquisas neurocientíficas sobre a plasticidade neuronal e o impacto do ambiente na arquitetura cerebral, entre outros.
Além disso, budismo e psicanálise são campos plurais que abrigam tradições, movimentos e correntes de pensamento e de prática que se diferenciaram bastante. Depois de 25 séculos de existência, o primeiro desenvolveu grande número de escolas, hoje distribuídas basicamente em três grandes linhas. A psicanálise, com seus cento e poucos anos, também se desdobrou em algumas vertentes, das quais as mais relevantes atualmente são a lacaniana, a winnicottiana e a kleiniana.


Para a filosofia budista, tudo o que existe é impermanente: pessoas, objetos, experiências e sentimentos; quando mudam as causas, os fenômenos cessam


AS TRÊS MARCAS DA EXISTÊNCIA
Para o budismo, a análise da experiência de si, ou do eu, deve começar pela compreensão das três marcas da existência: a primeira é a impermanência (anitya), ou seja, a transitoriedade e a natureza condicionada de todos os fenômenos (do eu, dos objetos do mundo, de qualquer experiência, ou sentimento). Tudo o que existe é impermanente devido a sua natureza composta, o que significa que tudo depende de causas e condições para existir. Se essas cessarem, cessam também os fenômenos. Tudo está sujeito a aparecer e desaparecer.
A ausência de substância inerente, ou de existência independente, é a segunda marca da existência (anatman), também traduzida por não-substancialidade, não-essencialidade, ou não-eu. Como temos dificuldade em lidar com a impermanência e a não-substancialidade dos fenômenos e das formas, nos agarramos a eles, acreditamos e apostamos em sua permanência e substância.
Este apego é fonte de dukkha, outra marca da existência e a primeira das Quatro Nobres Verdades – pedra fundamental do budismo. Dukkha tem sido traduzido como sofrimento, mas a melhor sinônimo talvez seja insatisfatoriedade. A existência é inevitavelmente experimentada de forma alternada como boa ou má, feliz ou triste, promissora ou decepcionante. Tanto na alegria como na felicidade se encontram fontes de possíveis tristezas e dores (a perda de um ser querido, o fim de um amor). A experiência cíclica de satisfação e insatisfatoriedade é inevitável, já que desejos e anseios surgem naturalmente como decorrência do contato dos sentidos com o mundo ao redor. Este movimento (trishna, que significa sede, ânsia) compõe a segunda das Nobres Verdades (a causa da insatisfação), que é sucedida pelas duas outras Nobres Verdades: a percepção de que é possível superar o ciclo de sofrimento cíclico, e a compreensão do meio para alcançar esta liberação: o Caminho Óctuplo.
Com base nestas noções fica claro que para o budismo o eu, como todos os fenômenos, não tem substância, é uma combinação de vários elementos e tem uma natureza condicionada, sem essência e mutável. Trata-se de uma experiência em movimento, não uma entidade independente. Resulta da articulação de cinco elementos, os chamados cinco skandhas (amontoado, pilha, coleção): a forma (materialidade física do corpo), as sensações (causadas pelo contato com o mundo, ao qual não somos neutros), as percepções (discriminações decorrentes desses contatos), as formações mentais (disposições, conceituações, tendências da ação) e a consciência. Os skandhas são fluxos da existência que, uma vez articulados, produzem a experiência de si. Embora descritos separadamente, eles são na verdade um mesmo movimento, ou partes de um processo em curso. O eu, portanto, é vazio de essência própria. Aquilo que percebemos e veiculamos como personalidade, idiossincrasias, identidade e compulsões são na realidade efeitos da combinação desses agregados. É por causa de nossa ignorância (avídya, não-visão) sobre a natureza condicionada dos fenômenos que somos levados a atribuir solidez e permanência ao eu e a suas propriedades.


Para o filósofo Slavoj Zizek o budismo é a prática ideal para os tempos neoliberais: cada vez mais se aproxima das neurociências e já não é visto como fenomêno exótico


“Estudar o budismo é estudar o eu; estudar o eu é esquecer-se do eu; esquecer-se do eu é reconciliar-se com todos os seres.” A frase atribuída ao grande mestre zen do século XIII Dogen condensa muitas noções centrais do budismo: seu núcleo e ponto de partida é a análise da experiência (e seu aspecto mais sensível e fundamental é a experiência de si); ao compreender sua natureza não-substancial e transitória, abrimos caminho para uma transformação da experiência, na qual já não nos submetemos cegamente às causas e aos efeitos que nos atingem incessantemente; conquistamos um grau maior de liberdade em relação aos nossos próprios condicionamentos; por fim, ao reconhecermos a interligação e interdependência de todos os fenômenos e de todos os seres, podemos nos posicionar de modo diferente em relação a eles, sendo mais livres, mais criativos e mais compassivos. Assim, conhecimento, prática e posicionamento ético se imbricam naturalmente.

FICÇÃO DO EU
Para Freud, o eu é uma ficção necessária à ação. Em todas as suas versões, a psicanálise se baseia no desenvolvimento complexo dessa idéia. Na descrição freudiana, o ser humano é um animal que nasce prematuramente, em condição de dependência absoluta, desde cedo busca o amparo e a proteção necessários à sobrevivência, e é instado a responder a solicitações e injunções dos meios físico, biológico e cultural. O complexo processo de constituição de um eu capaz de se reconhecer como sujeito frente aos outros começa com os primeiros movimentos e ações do bebê, passa pelo mergulho da criança no universo das significações propiciadas pelo equipamento lingüístico e pela conquista de um lugar na cadeia de gerações e na divisão dos sexos e segue por toda a vida, ao longo da interminável trajetória de construção de narrativas e identificações com as quais o indivíduo dota de sentido sua existência pessoal.





Alguns estudiosos dizem que somos montagens, arranjos sintomáticos mais ou menos bem-sucedidos




A experiência de si, aos olhos da teoria freudiana, é o resultado complexo, mutante e inacabado de um equilíbrio instável entre um enorme conjunto de fatores, que vão das exigências conflitantes de instâncias internas (id, ego, superego), às difíceis mediações entre desejos inconscientes e normas sociais internalizadas, mecanismos de defesa contra a angústia, necessidades psicossomáticas e demandas produzidas culturalmente, e assim por diante. O eu da psicanálise é, portanto, fragmentado, governado por forças que não domina, uma montagem mais ou menos bem-sucedida que leva o sujeito a agir no mundo, buscar satisfações e lidar de alguma maneira com o desamparo, a angústia e o desejo. Ele é, para usar uma expressão do filósofo Daniel Dennett, um centro de gravidade: não tem substância, tudo nele deriva dos efeitos produzidos pelas interações com os outros aspectos significativos de sua história, com o ambiente natural e simbólico que o circunda, com as expectativas e desejos projetados sobre ele (mesmo antes que tivesse nascido, no desejo inconsciente dos pais). O eu é uma imagem (daquilo que vejo refletido no olhar do outro, daquilo que suponho poder causar no outro) e uma trajetória (de identificações, de configurações sintomáticas, de posicionamentos subjetivos frente aos outros) que resultam dessas interações e permitem ao sujeito projetar-se em um futuro.
Freud definiu a psicanálise como uma teoria do funcionamento subjetivo, um método de investigação da vida mental e uma forma de tratamento do sofrimento psíquico. Apesar da origem médica, ele sempre recusou a subordinação de sua criação às expectativas curativas da psicologia e da medicina. Em sua abordagem da experiência subjetiva não há lugar para uma normalidade cuja restituição seria o objetivo da prática clínica. Como somos em verdade montagens, arranjos sintomáticos mais ou menos bem-sucedidos, o que o dispositivo analítico pretende não é a simples redução ou eliminação de sintomas ou do sofrimento (isto se consegue de muitas outras maneiras, de sugestão a medicamentos), mas uma ampliação da normatividade do sujeito, ou seja, de sua capacidade de se reposicionar subjetivamente, de ser mais espontâneo e criativo na vida de que desfruta, não se fixando excessivamente a imagens do eu, respostas sintomáticas ou estereotipias da ação que limitam e estreitam seu horizonte existencial.
Este reposicionamento é alcançado na medida em que o dispositivo analítico oferece ao sujeito as condições para que ele se reconheça como autor de sua própria existência. Ao implicar-se no próprio sintoma que aparecia antes como um alien estranho e desconhecido a assombrá-lo, o sujeito amplia a percepção dos vários elementos e fatores que incidiram sobre seu percurso pessoal, sobre o papel de suas escolhas (conscientes ou inconscientes) na construção do eu que ele é, da vida que experimenta e do mundo que habita. Assim ele se habilita ao desprendimento de si, a ocupar sua existência com gestos mais espontâneos e menos autocentrados, mais criativos e menos auto-indulgentes. Deste ângulo, portanto, percebe-se que a psicanálise e o budismo se afirmam, por caminhos distintos, como saberes que visam a transformação da existência e como práticas que buscam a liberdade.

INTERESSE RENOVADO
Budismo e psicanálise ocupam posições diferentes no cenário contemporâneo. O primeiro é a religião ou prática espiritual que mais se expande no mundo, impulsionada por diversos fatores: a diáspora tibetana que espalhou mestres treinados por todo o Ocidente, o ativismo cosmopolita do Dalai Lama (a despeito do cerco promovido por autoridades chinesas), o apelo que as práticas corporais das espiritualidades asiáticas têm para culturas que privilegiam a atenção e o cuidado com o corpo, a posição não proselitista e não dogmática adotada pelos praticantes, a crítica às pretensões racionalistas da cultura ocidental etc.
Nas últimas décadas o budismo tem sido também alvo do interesse de certos ramos de ponta da ciência, em especial do campo das neurociências, interessadas em explorar a enorme riqueza de observações empíricas que sustentam os conceitos budistas sobre a mente. Porém, de um modo que não chega a ser surpreendente, o sucesso acarreta também embaraços: em muitos contextos a prática budista virou moda. É chique deixar-se fotografar em posição de lótus e exibir em casa estátuas ou imagens do seu repertório iconográfico. Há 25 séculos a serviço do desapego aos objetos e ao desprendimento de si, o budismo se vê freqüentemente transformado em técnica de otimização do desempenho com vistas ao sucesso individual. O filósofo Slavoj Zizek chegou a afirmar, provocativamente, que o budismo (do mesmo modo que outras espiritualidades orientais como o taoísmo) havia se tornado a ideologia ideal para os tempos neoliberais. De qualquer modo, ele vive hoje um processo de intensa difusão na cultura ocidental, tem sido menos visto como fenômeno asiático exótico e vem dialogando cada vez mais tanto com religiões ocidentais quanto com as ciências, em especial as neurociências.
A psicanálise, por sua vez, vive um momento de transição. Passada a década de 90, em que sofreu todo tipo de vaticínio sobre sua morte por obsolescência teórica e inutilidade prática, recrudesce o interesse por ela, tanto do lado das neurociências como da psicologia do desenvolvimento e as ciências da cognição. Abrem-se para a psicanálise territórios que haviam permanecido praticamente fechados durante quase todo o século passado, especialmente nos países do Leste europeu e na China. Por outro lado, um reposicionamento de seu lugar vem ocorrendo na sociedade ocidental. Se na cultura psicológica e da sentimentalidade ela ocupou papel de destaque na clínica mental e no campo social, na atual cultura somática e das sensações esse lugar está sendo disputado por outros dispositivos terapêuticos e teorias centrados no corpo e na capacidade de controlar, cognitiva ou quimicamente, disfunções e transtornos o que possui um claro efeito dessubjetivante, na medida em que tendem a desimplicar o sujeito de sua experiência. Hoje a psicanálise tornou-se um dos poucos campos nos quais os indivíduos ainda são interpelados não como meros seres biológicos ou agentes sociais, mas na condição de sujeitos. Por isso ela anda, por assim dizer, na contramão da cultura hegemônica. O que para uns pode parecer uma perda – o fascínio social de outrora se reduziu –, para outros é uma vantagem: a psicanálise retoma cada vez mais o caminho da investigação clínica, fonte mais fecunda de toda sua originalidade e interesse.
O diálogo entre budismo e psicanálise jamais foi tão intenso. Nunca houve tantas oportunidades para exploração de suas afinidades e diferenças. E isso interessa não só a seus praticantes, mas a todos os que se voltam à ampliação da caixa de ferramentas (como diria Wittgenstein) para lidar com a experiência de si e suas vicissitudes.

TRADIÇÕES BUDISTAS
Única remanescente das primeiras escolas, o budismo Theravada (“caminho dos anciãos”) predomina há séculos no Sri Lanka, Indonésia, Malásia e Sudeste asiático. Suas principais características são a ênfase na vida monástica, na disciplina individual em direção à iluminação e na concepção da natureza humana como obstáculo a ser ultrapassado.
O budismo Mahayana (“grande veículo”) originou-se na Índia e de lá se deslocou, a partir do século II, para a China, onde encontrou o taoís-mo. Daí disseminou-se para o leste da Ásia, tendo muita força no Japão, Vietnã e Coréia do Sul. Em contraste com o ascetismo doutrinário theravada, a tradição mahayana tem uma perspectiva mais universalista e inclusiva. Sua ênfase não está na busca individual pela iluminação, mas no esforço do bodhisatva de se dedicar ao objetivo de iluminação de todos os seres. Outra diferença é a concepção mahayana segundo a qual todos os seres têm potencial para atingir a iluminação. A natureza humana não é vista como obstáculo a ser vencido: há uma “natureza búdica iluminada” na humanidade, que precisa, por assim dizer, ser reencontrada por meio do rompimento do véu de aparência dos fenômenos, e não propriamente alcançada pelo esforço de superação. A escola mahayana mais conhecida é o Zen, cujas características essenciais são a recusa violenta a intelectualizações e estratégias gradativas de caminho espiritual. Suas práticas fundamentais são o zazen (meditação contemplativa que visa colocar o praticante em contato direto com a realidade), o uso (na vertente Rinzai) do koans, na busca do satori (realização súbita da iluminação).
O budismo Vajrayana (“veículo do diamante”), ou budismo tântrico, é uma extensão do Mahayana e se caracteriza pela adoção de certas técnicas e práticas próprias. Está presente no Tibete, Nepal, Butão, Mongólia e, com a diáspora provocada pela invasão do Tibete, tem seu centro em Dharamsala, norte da Índia, sede do governo no exílio, de onde o Dalai-Lama projeta sua presença no mundo. Por se caracterizar por um profundo esoterismo, o budismo Vaj-rayana é cheio de símbolos, imagens e práticas devocionais, além de ensinamentos secretos, passados direta e oralmente pelo mestre ao discípulo. Em contraste com o Zen, algumas de suas práticas são explicitamente voltadas para o exercício ou cultivo da compaixão como a metta bhavana, uma forma de meditação dirigida ao abandono de sentimentos de apego e aversão e o desenvolvimento da amorosidade ou da fraternidade.
Com a difusão no Ocidente, o budismo tem dialogado com tradições filosóficas locais, resultando na construção de versões contemporâneas e ocidentais, como o budismo agnóstico defendido por Stephen Batchelor, que propõe uma descrição dos ensinamentos budistas de corte mais secular e existencialista que religioso.

ESCOLAS PSICANALÍTICAS

Réplica do consultório de Freud, em Viena: Klein, Winnicott e Lacan ampliaram a teoria psicanalítica, que hoje vive momento de transição

Os três maiores protagonistas no cenário psicanalítico pós-freudiano são Melanie Klein, Donald Winnicott e Jacques Lacan. Cada um desenvolveu o legado freudiano a seu modo, acrescentando contribuições originais na teoria e na clínica. Klein ampliou o alcance da psicanálise ao pesquisar a vida mental dos bebês e propor inovações no tratamento de crianças (como o uso da brincadeira como forma de atingir complexos inconscientes), e ao fundar a análise das relações objetais, centro de sua investigação teórico-clínica.
Winnicott, que inicialmente se alinhava com Klein, aos poucos se desprendeu de sua influência e enfatizou a importância dos primórdios da vida psíquica infantil, uma fase na qual as relações de objeto ainda estão por se formar, decisiva no processo de amadurecimento pessoal. Essa etapa seria anterior às relações ditadas pela lógica pulsional, e seu motor não seria propriamente a sexualidade (uma tese, portanto, que o distingue de Freud), mas outra força econômica do psiquismo: a agressividade primária, mais próxima da vitalidade dos tecidos que das tramas conflitivas interpessoais, que só emergem posteriormente. Leitor e admirador de Charles Darwin, Winnicott construiu uma psicanálise de forte matiz naturalista, em que noções como as de desenvolvimento, maturação e psique-soma são centrais. Tanto na teoria como na prática, sua ênfase está na idéia de continuidade na vida psíquica, em que os traumas são situações nas quais essa continuidade é ameaçada. Sua obra tem sido alvo de interesse renovado nos últimos anos.
Lacan voltou-se para a lingüística de Saussure e para a antropologia de Lévi-Strauss para produzir uma versão estruturalista da psicanálise, com um grande número de inovações teóricas (a tríade real, simbólico e imaginário; o objeto a; a noção de lalíngua etc.) e um remanejamento profundo do dispositivo clínico (o tempo lógico, a lógica do significante). Na perspectiva lacaniana, o que se põe como central na transformação da vida subjetiva é a descontinuidade, a precipitação, o salto – situações traumáticas podem ser constitutivas e não ameaçadoras. Recentemente vem sendo valorizada a última parte de sua obra, em que o estruturalismo e a importância concedida à linguagem cederam lugar a uma reflexão sobre o campo do pré-reflexivo ou do não-discursivo na vida subjetiva.

Benilton Bezerra Jr. é psiquiatra, psicanalista e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Disponível em:
http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/inconsciente_e_impermanencia_imprimir.html

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Beleza de Boneca

Como uma bem-sucedida boneca pode nos ajudar a compreender como se estabelecem os padrões de beleza na sociedade.

Em 1997, o psicólogo Albert Magro, pesquisador da Faculdade Estadual de Fairmont, Virgínia do Oeste, conseguiu esclarecer o mistério. Ele mostrou a 495 indivíduos ilustrações e retratos de pessoas com diversas características e formatos do rosto e corpo. Os participantes deviam indicar quais aspectos consideravam mais atraentes.
Foi constatado que as pessoas detestam coxas curtas, pernas curvadas, dentes caninos grandes (sobretudo os pontiagudos), gengivas proeminentes, mãos longas, dedos curvados, polegares e pescoço curtos e maxilares excessivamente projetados. Entre as características mais apreciadas estão: pernas longas, pescoço comprido, lábios rosados e carnudos, olhos grandes, ombros eretos, dentes regulares, dedos afunilados, pele lisa e sem pêlos, ventre plano, arco da sola do pé acentuado, isto é, as mesmas características da Barbie. O estudo foi publicado na revista Perceptual and Motor Skills. Faltava, porém, explicar por que esses aspectos são tão atraentes.
Albert Magro recorda que, ao longo da evolução da espécie, os traços hoje considerados atraentes desenvolveram-se quando as pessoas começaram a caminhar eretas, o que coincidiu com o aumento da inteligência, das habilidades manuais e com a dieta onívora. A adoção da marcha bípede, por exemplo, trouxe o alongamento das pernas e do pescoço e posicionou os ombros mais para trás. A alimentação variada modificou a forma do maxilar e da dentição. O desenvolvimento do córtex cerebral levou ao aumento do volume do crânio, ao passo que a inteligência ampliou a habilidade de usar utensílios, o que acarretou a modificação do formato das mãos. Quanto aos lábios, somos a única espécie cujas mucosas labiais são voltadas para fora, traço observado também em macacos, mas apenas no estágio fetal.

A evolução de Vênus
Magro constatou também que os aspectos que menos agradavam os participantes da pesquisa correspondiam às características de nossos antepassados mais primitivos e de alguns macacos modernos. Quando se olha para uma Barbie, nota-se que, não por acaso, a boneca é um condensado de traços evolutivos (corpo e rosto), sem nenhum traço primitivo. Seria este o segredo de sua popularidade?
Nossa percepção de beleza desenvolveu-se de forma simultânea à evolução de nossos traços físicos. De fato, se “novas” características são mais freqüentes hoje, é porque os seres humanos escolheram companheiros dotados delas. E elas foram, portanto, conservadas na evolução graças a um método de reprodução de tipo “seletivo”.
As fêmeas que possuem estas qualidades tinham maiores chances de se reproduzir e de gerar uma prole com suas próprias características; as outras simplesmente desapareciam. Podemos supor que os machos humanos se reproduziam (e talvez se reproduzam ainda) tendo uma Barbie como modelo inconsciente na escolha de sua parceira.
Apesar dos problemas que esta boneca pode suscitar por causa dos tipos de papéis femininos que encarna, ela ilustra o modo pelo qual se desenvolveu a percepção da beleza humana: Barbie tem todos os elementos físicos que julgamos “bonitos”.
Alguns psicólogos evolucionistas acreditam que, enquanto os padrões para avaliar o rosto variam ligeiramente de acordo com a época e a cultura, para o corpo existiria uma norma universal de beleza. Segundo a hipótese darwiniana, de fato a beleza serviria para identificar os indivíduos com “bons genes”. Seria um indicador de boa saúde, e nós preferimos pessoas bonitas para aumentar as chances de unir nossos genes aos delas. Se os cabelos forem bonitos, o corpo esbelto e musculoso, a pele, lisa e firme, o rosto, simétrico, significa que o patrimônio genético assegura boas possibilidades de sobrevivência e de reprodução; e de modo especial um bom sistema imunológico.

Quadris darwinianos
Apesar da cintura fina, as ancas da Barbie são amplas. Um psicólogo da Universidade do Texas demonstrou que os homens são sensíveis a uma relação cintura-quadril inferior a 0,7 (por exemplo, 60 cm de cintura e 90 cm de quadril), o que seria indício da capacidade da mulher de enfrentar o parto sem grandes dificuldades.
Além disso, a aparência da boneca é jovem, e a juventude representa também um critério de beleza, já que a idade é um indicador de fertilidade. Os olhos grandes são apreciados justamente porque sinalizam juventude. Segundo estudo realizado em 1996, apenas os adolescentes preferiam mulheres cinco anos mais velhas. Homens adultos têm optado, ao longo dos séculos, pelas mais novas. Finalmente, que dizer da cor dos cabelos da Barbie? Será verdade que os homens preferem as loiras?
Uma coisa é certa: gostamos das pessoas portadoras de genes distantes dos nossos porque a mistura genética aumenta a capacidade de sobrevivência. Por esta razão, em muitos países em que predominam os morenos, os loiros são mais procurados justamente por serem raros. Unir-se a eles permite manter a diversidade genética e reforçar o sistema imunológico da prole, fato que favoreceria a conservação da espécie.
Até os bebês são sensíveis à beleza. O psicólogo Alan Slater, da Universidade de Exeter, Reino Unido, mostrou para 100 meninos recém-nascidos entre as cinco horas e dois dias de vida, duas fotografias diferentes, colocadas uma ao lado da outra, ambas a cerca de 30 cm do rosto do bebê. Uma das fotos mostrava uma mulher muito bonita e a outra, uma mulher comum. O olhar dos bebês voltou-se quatro vezes mais para o rosto que os adultos julgariam atraente.
Isto demonstra que a identificação de feições “agradáveis” parece ativa desde o nascimento. Segundo Slater, uma aparência bonita representaria de alguma forma o protótipo de um rosto humano; aliás, se fundíssemos centenas de rostos com a ajuda de computadores, obteríamos uma média estatística de características faciais particularmente atraentes. Na mente de um recém-nascido, os rostos bonitos representariam, portanto, um modelo que talvez pudesse servir de referência, permitindo a ele comparar este protótipo com os rostos que estão próximos.
Homens ou mulheres, independentemente de nossas características, somos todos sensíveis à beleza. Estamos “biologicamente programados” para reconhecê-la e apreciá-la. E quem é que assume todas as características da beleza feminina? Ela mesma: a Barbie.
(Tradução de Neury Carvalho Lima )

Disponível em:
http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/beleza_de_boneca.html

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Lágrimas

"Choro, porque chorando materializo a minha dor..."


Profundo... até porque tenho pouca habilidade ao me relacionar com quem tem dificuldades em expressar sentimentos...

E chorar é bom...
Mas, como diz um velho amigo,
"É só nos olharmos no espelho para percebemos como pode ser patético..."
e logo caímos na risada!
;o)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Nasceu a minha mais nova afilhada!!!


O que eu gostaria que ela soubesse desde já:

- Filhos são uma dádiva divina!
E pais são para sempre...

- Sim, a vida é bela!
Pro que não é belo a gente convida os amigos e chora, bebe ou discursa indignado!

- Sem saúde pouco nos resta...
Então, mantenha-se afastada do que estressa!

- Dificuldades existem...
Mas pra isso temos amigos, colos e ombros, inteligência... e umas boletinhas qdo necessário... rs

- Nunca desperdice a oportunidade de aprender!
Com os mais velhos, com um livro... ainda que com um erro... e mesmo que seja de outro...

- As coisas mudam e as pessoas também...
A todo momento! Que bom!

- Oportunidades sempre aparecem.
Devemos nos preocupar em estar preparados pra elas!

- Os realmente amigos são poucos...
Mas tenhas certeza de que estarão sempre lá quando precisares!

- Custei a compreender, mas realmente disciplina é liberdade e compaixão é fortaleza!

Por fim, Carol, queria que soubeste que foste mto curtida desde que soubemos que virias! Até pela Duda!
A tua mãe sempre foi uma graaaaaande amiga minha (sabe assim, tipo irmã mais nova?! Pois é... rs) - e por consequência o teu pai -, assim como as tuas avós e os teus titios!
Amo a todos como se fossem minha família, pois assim fui tratada por eles desde que cheguei a Lages!
Que a tua vida seja plena e intensa... com saúde e alegria, paz e sucesso!
E que se padrinhos são pessoas a quem confiaríamos nossos filhos no caso de faltarmos a eles, podes contar comigo a partir de hoje e SEMPRE!
Te amo!
Com carinho,
Dinda Lú!

Questões da 2ª fase do concurso para a Magis do TRF1



DISSERTAÇÃO
Disserte sobre o tema dignidade da pessoa humana, desenvolvendo, necessariamente e na sequência proposta, os seguintes tópicos:
- dignidade da pessoa humana como concepção filosófica e moral
- pessoa humana como sujeito e objeto de direitos (aporia?)
- marcos de maior repercussão na trajetória histórica desse tema
- dignidade da pessoa humana como concepção humanística e sua inserção nos documentos constitucionais do século XX
- significado desse princípio no contexto da ordem jurídica
- princípio fundamental da dignidade da pessoa humana segundo a ordem jurídico-constitucio nal brasileira
- dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais
- dignidade da pessoa humana como garantia negativa
- papel da jurisprudência em face do tema

Questão 01
Discorra sobre a finalidade da pena como sanção específica do direito penal, abordando as principais teorias relacionadas ao tema, com ênfase na doutrina de Kant
Questão 2
Discorra a respeito das situações jurídicas listadas a seguir bem como sobre as suas respectivas titularidades e definições, estabelecendo relação, no que for cabível (e se o for), com os institutos da prescrição e da decadência.
- dever jurídico
- dever livre
- sujeição
- obrigação
- interesse legítimo
- obrigação potestativa

Que tal?!?!


domingo, 20 de dezembro de 2009

Sabedoria de mãe!


"Na próxima encarnação quero nascer homem
e casar com uma mulher igualzinha a mim!"
(R. Fontes)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Será?!


Que deu pra perceber que ontem foi dia de enxurrada emocional?!

Raiz


Muito eu e a minha mãe andamos por Sampa atrás de alguém que restaurasse uma antiga imagem do anjo da guarda que a minha avó tinha e havia perdido as mãos!
Finalmente achamos a pessoa adequada para fazer isso. Aos nossos olhos não ficou perfeito, mas... agradou a ela, e isso era o que importava (e principalmente nosso esforço particularmente despendido em homenagem a ela!)...
Lembrei disso quando outro dia ela me ligou e, por telefone, declamou a oração que a mãe dela rezava com os filhos, todas as noites, em alemão...
A vó fala alemão, o que infelizmente (talvez devido àqueles tempos de muita repressão contra quem falava o idioma) não foi repassado aos filhos dela... muito menos a nós, os netos...
Diz mais ou menos assim:
“Sou pequenininho
Meu coração é limpinho
Nele só cabe
Jesus, meu amiguinho”
Enfim, acho que ela pretende que a tradição passe entre nós, já que agora tenho uma filha... e esta, por sua vez, provavelmente terá filhos (será?!)...
Essa tradição familiar é uma coisa meio burguesa, mas de uma certa forma me dá uma nostalgia... e, por outro lado, uma sensação gostosa de ter raiz...
Não raiz no sentido de que você tenha que viver sempre aquilo e daquilo e sem se mover, nem sair do lugar... até porque o processo de diferenciação é bastante complicado, mas sem ele não há individualidade!
Digo no sentido de saber de onde viemos... Porque como saber para onde ir se não soubermos de onde viemos?! Sabendo já é tão difícil!
Enfim... só sei que é uma página da cartilha da minha mãe (e dá vó, pelo jeito) que não pretendo rasgar.
Não importa a religião, o que importa é cultivar a espiritualidade e isso é o que quero passar para a minha filha.
Amém!

Inadequação


O sentimento de inadequação sempre foi muito forte em mim.
Começou em casa, onde penso e sinto muito diferente do resto da família.
Com os amigos é interessante.
Sempre tive uma melhor amiga, mto poucos amigos e vários conhecidos.
Alguns me admiram, poucos me acompanham e menos ainda me compreendem.
Não posso ter uma só planta que ela seca.
Tenho dois cachorros... a minha tem uma dermatite há anos!
Dizem: “antes neles do que em ti!”
Agora decidi que só vou cultivar laços com pessoas que me toquem de maneira positiva. Que acrescentem. Somem. To de saco cheio de gente medíocre!
No trabalho.
Bem, adoro trabalhar sob pressão... geralmente é quando fico mais diligente e criativa.
Mas isso também assusta.
Além disso, as relações pessoais no ambiente de trabalho são complicadas porque trazem consigo uma espécie de disputa implícita.
Ocorre que não gosto de disputar nada com ninguém. Só comigo mesma.
E talvez eu seja mto direta, ou não esteja realmente preocupada com a forma como digo as coisas, apenas em manifestar o meu ponto de vista...

(Des)compasso


Tu querias, há muito, disseste.
Eu não sabia, sequer desconfiava.
Ao ouvir de ti, duvidei.
Insistindo, me convenceste.
Passei a querer.
Desejos combinados.
Pouco há de mais extraordinário.
Mas o inevitável acontece
E começam os desencontros.
Os quereres se distanciam:
na intimidade
na intensidade da paixão
nos desejos
nas intenções.
O descompasso entre os corações
Altera o ritmo da dança
E tudo entre nós
Torna-se impossível.

Extravasando



O pensamento não vaza.
Ele não ultrapassa as barreiras que impões a menos que seja
escrito, verbalizado, colocado pra fora.
Não me cobre saber o que se passa dentro de ti.
Não tenho esse dom.
Sei que sabes o que se passa dentro de mim, porque verbalizo.
Ainda que não o fizesse, sabes me olhar por dentro.
Eu não.
Desculpe.

Generosidade


Há uma coisa que admiro demais: generosidade intelectual.
E a generosidade pode ser demonstrada de formas tão simples: respondendo às perguntas com respeito à curiosidade, ignorância ou coragem do interlocutor; dando a palavra ao outro; reverenciando as opiniões divergentes ao fazer delas o mote para o debate; saudando a platéia atenta...
Por que então é tão raro encontrar?!
Por que alguns ditos ‘intelectuais’ via de regra são tão arrogantes e presunçosos?!

Liberdade


Queria conseguir me libertar...
ao menos com mais facilidade...
Porque é tão difícil?!
Muitos padrões a romper
Muitas nuances a considerar
Muitos sentimentos em jogo
Ou será que não é nada disso...
E eu, na minha neurose,
Transformo tudo em um grande monstro?!

Necessidade



Me conhece tão bem e faz de conta que não.
Espera reações numa resistência sem limites.
Aplaca o que arde no peito apenas para não ceder.
Não ultrapassa os limites impostos por si mesmo.
Para!
Te mostra!
Revela o que ocultas com tanto zelo... tanta bravura....
Isso só vai fazer com que te ame ainda mais.
Surpreenda-me!

A Boca



Responsável por beijos mornos,
suaves, úmidos, intensos.
Insaciável.
A ela cabe desvendar cada espaço,
Cada milímetro do teu corpo.
Incansável.
Permita que ela ouse
Até sentir o gosto das tuas entranhas.

(Des)encontro

Me aproximo.
Te adiantas.
Me entrego.
Te fechas.
Me mostro.
Te escondes.
Pressinto passos.
Ouço o escuro da noite.
Na tranqüilidade do quarto percebo a urgência...
Te acercas de mim.
Sem cerimônias, me tomas pra ti.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Para a Simone e para todas nós, mães!

Se você ainda acredita em sacrifícios incondicionais, é bom descer logo desse altar. Quem faz apenas o possível respira mais aliviada - e cria filhos mais felizes




Não, doutor Freud não tinha razão quando dizia que somos "por natureza" masoquistas. Não somos capazes de encontrar prazer na dedicação absoluta aos filhos, consagrando todas as horas do dia a limpar, aquecer, distrair, alimentar e fazer dormir. Hoje sabemos disso, mas, algumas gerações atrás, as mulheres descontentes com esse esquema eram tachadas de "anormais".
Como foi ficando cada vez mais difícil corresponder aos modelos de perfeição ou de "normalidade", a raiva tomou conta de muitas de nós. Mas senti-la provocava mais culpa. Não é à toa que às vezes sucumbimos, odiando os filhos e a nós mesmas por não sermos um exemplo de benevolência - ao contrário, não raro perdemos a paciência por problemas prosaicos, que nos testam todo dia.
O maior desafio da mulher ainda é conseguir aceitar os próprios limites. "O que sempre dificultou nossa vida foi o fato de termos assumido muitos papéis", frisa a psicoterapeuta junguiana Lucia Rosenberg. "Como esses papéis são muito recentes, a culpa nos acompanha no horário comercial e nas happy hours. Pelos padrões seculares, deveríamos estar vendo a lição ou assando bolo..."
Mas nós mudamos e, graças às feministas, que chamaram o instinto materno de "enorme pilhéria", pudemos respirar mais aliviadas, reconhecendo que o amor de mãe é apenas um sentimento humano e, como todo sentimento, incerto, frágil e imperfeito. Ah, que alívio poder existir fora da fôrma, desenvolvendo relações mais transparentes com nossos filhos, sujeitas a altos e baixos, como todo vínculo humano honesto e verdadeiro.
Foi assim que conseguimos virar a página e deixar de viver a maternidade como obrigação, sabendo que não há comportamento materno suficientemente unificado que permita falar de instinto ou atitude universal. "As mulheres que se recusam a sacrificar ambições e desejos ao maior bem-estar do filho são demasiado numerosas para ser classificadas como exceções patológicas que confirmariam a regra", diz a escritora francesa Elisabeth Badinter em seu livro Um Amor Conquistado: o Mito do Amor Materno (Nova Fronteira), em que joga a pá de cal definitiva sobre a idéia da mulher "anormal", ou seja, aquela que escapa ao molde da santa senhora.
Desdobráveis, sim, heroínas, não Claro que algumas de nós conseguem desempenhar com certo talento e sem muito stress a dupla jornada de trabalho. Afinal, a maternidade é um dom, e não um instinto, e como tal há quem o possua - ou não. No rol das bem-dotadas está a mineira Ana Cecília Carvalho, 52 anos. Psicanalista, escritora, professora universitária e mãe de dois filhos, ela credita o sucesso da sua empreitada à mãe, seu grande exemplo. "Só me dei conta de que minha mãe não era igual às outras quando passei a freqüentar a escola, em meados dos anos 50. Descobri, então, que ela era a única, entre as mães da turma, que trabalhava fora e tinha uma carreira. Isso passou a ser motivo de orgulho para mim. Dela herdei a idéia de que ser mãe é nutrir com amor. Mais do que uma memória, essa é a base da minha identidade e é também o que me inspira no dia-a-dia na sala de aula, no trabalho no consultório, em cada texto que escrevo."
Ana Cecília reconhece que nem sempre a situação é amena e sem sacrifícios. "Todas as mães vivem algum sentimento de culpa, porque, embora tenham capacidade de se desdobrar, não conseguem evitar os conflitos com os filhos." Desdobráveis, sim, mas não heroínas a ponto de dar conta de tudo ao mesmo tempo e sempre. Há momentos em que a gente entra em parafuso mesmo. Foi o que aconteceu com Juçara Costta, 52 anos, artista plástica, dois filhos, que em meio a uma grande crise depressiva resolveu entregar Décio, 3 anos, e Gustavo, 1 ano e meio, ao pai, de quem já havia se separado. "Não quis mais que as pessoas interferissem no meu encontro com a arte, que todos consideravam uma bobagem. Diziam que eu deveria me contentar com o marido maravilhoso e os dois filhos lindos. A repressão à minha carreira e a culpa por eu não estar agradecida a tudo o que a vida tinha me dado me levaram ao desespero."
Juçara tomou essa medida com a certeza de que tanto a família de seu ex-marido quanto a sua teriam estrutura para acolher as crianças. "Não abandonei meus filhos. Ao contrário: achei que eles não mereciam viver a dor daquele momento. Preferi ficar sozinha, mas sabia que, um dia, eles voltariam e me encontrariam pronta para dar a eles o que mereciam. Foi o que aconteceu."
Com a ajuda da psicanálise, Juçara conseguiu se aprumar. "Décio já estava com 13 anos quando começou a ir aos meus vernissages e às peças de teatro em que eu atuava como atriz. Um dia, pediu para voltar a morar comigo. Mudei toda a minha vida para recebê-lo. Logo depois veio o Gustavo. Aos poucos, fui reconstruindo a relação com os dois - hoje ela é amorosa e sem traumas. Considero-me amiga dos meus filhos. Tenho um profundo respeito por eles. Estou certa de que valeu muito mais ser uma mulher verdadeira do que uma mãe perfeita."
Que tal chamar o pai? Livres do script viciado, podemos recusar a vida de sacrifício. Ainda bem, porque quem entra nessa pelos filhos cobra no fim, com juros e correções, toda a energia gasta. Afinal, ninguém é santa. A salvo desse engano, precisamos ainda corrigir outro pequeno desvio comum em nosso caminho: a mania de achar que, instintivamente, sabemos cuidar melhor das crianças do que os homens. E já não é sem tempo de mudar, pois, nesse item, muitas mulheres desafinam. "Desde bebê, a mãe desautoriza o pai com frases do tipo 'dá que eu carrego; você não tem jeito pra dar comida; olha como segura o nenê no banho'", diz Lucia Rosenberg. "Se, em vez de estragar a relação dos filhos com o pai, as mulheres ajudassem a fortalecê-la, bingo! As crianças com certeza ganhariam com isso - e a mãe também, pois acabaria economizando tempo e dinheiro. A intimidade e o amor entre eles não seriam afetados desde que tivessem base sólida", afirma a psicoterapeuta.
A secretária Jogma Ribeiro Fernandes, 35 anos, dois filhos, dá a prova de que a coisa funciona - ela conta tanto com o apoio do marido como dos filhos. Jogma não se cobra o papel de ser a "sábia" da casa nem vê problema em não se dedicar inteiramente à maternidade. "Independentemente de ter filhos, eu sou mulher. Há momentos para ser mãe, profissional, esposa e amante. Vivo cada um deles, sem dramas, pois tenho dois filhos saudáveis e responsáveis e um marido presente, o que me libera para exercer todos os outros papéis." Ela diz que Olbe, seu segundo marido, pai de Victor, "sempre trocou fralda, levantou de madrugada, deu banho, comida. Nos finais de semana, por exemplo, é ele quem vai para a cozinha fazer pratos deliciosos. Vivemos um novo modelo de família, com os meus, os seus e os nossos filhos."
Assim, vemos que o amor não é mais privilégio das mulheres e que os novos pais podem se dar aos filhos com a mesma intensidade, ajudando efetivamente na sua criação. "Acredito que as atuais formatações familiares auxiliam ao oferecer pluralidade de modelos às crianças", comenta Lucia. "Hoje existem pais que ficam em casa enquanto as mães saem para o trabalho; namorados ou novos maridos que ocupam o lugar de modelos masculinos alternativos para os filhos; madrastas que mudaram de cara e podem ser grandes aliadas. Quanto menos rígido e cristalizado for o padrão familiar, mais possibilidades de gingar teremos todos." Então, como o balanço é brusco, diário e exige jogo de cintura, como você anda de suingue, mamãe?
Com amor e sem receita
A jornalista Déa Januzzi, 51 anos, conta neste artigo exclusivo a sua experiência de maternidade. Autora do livro Coração de Mãe (Editora Leitura), ela assina todo domingo uma coluna sobre o tema no jornal Estado de Minas.
Não tenho receita nem fórmula mágica para educar filho. Tem dias que quero fugir para bem longe. Sou canceriana, signo da Lua e das águas profundas, mas, às vezes, queria estar em Marte. Em outros dias, o sol brilha - e a mesma mãe que esbraveja também dança ao som de Bob Marley quando o filho chega inteiro da rua e liga o som. Aí, é dia de calmaria, pois a mesma mãe que sofre porque o filho atravessa a madrugada sabe também que é cheia de falhas e se lembra de quantas vezes deixou de telefonar para a própria mãe quando era adolescente. Essa mãe que se descabela com a violência nas ruas, com as drogas, com o perigo na esquina, que se culpa por ter se separado do marido quando o filho ainda era pequeno é a mesma que exorciza os seus demônios, que tem imenso prazer de ver o garoto buscar o próprio caminho. É a mãe que vê no filho a esperança de um mundo melhor. Nessas horas, vejo que não existe fórmula. Que o meu filho tem muitas mães; que ele aprende o melhor com a avó, com as tias, as primas, as minhas amigas e as dele. Que tem respeito pelas mulheres, porque eu o criei com toda a delicadeza e poesia que existem dentro de mim. E que ele também pode ter muitos pais para se identificar. Pode ser o avô, que continua vivo em seu coração apesar de ter partido há mais de 20 anos; seu professor de biodança; ou mesmo o pai, que, apesar da falta da convivência diária, está presente em algum canto secreto do seu coração. Ser mãe do Gabriel é um aprendizado diário. Aprendo coisas que não encontrei em livro nenhum. Pratico a maternidade como um exercício de liberdade. Somos amigos, acima de qualquer definição. Não imponho regras, tenho a liberdade de dizer o que penso. E ele faz o mesmo. Às vezes, gritamos um com o outro, trocamos palavras ásperas, afiadas, porque não vivemos num paraíso. Mas como é mágica essa relação! Ser mãe me redimiu, exorcizou os meus fantasmas, descortinou a janela secreta da minha alma feminina, por onde entram os ventos curativos da maternidade.
(Revista Cláudia - maio de 2004)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Separação

Tenho um arquivo em que já há alguns anos guardo frases, trechos de livros, pensamentos, poemas, pequenas crônicas... que de alguma forma me tocaram; me foram importantes em determinada fase da vida; remontam a alguém ou algo; seja pela sensibilidade ou pela perspicácia com que traduzem sentimentos e momentos... e geralmente algo me remete a algum deles... mas um, em especial, é recorrente em dias tristes...


 Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.
Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.
Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo, numa tentativa de secionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.
Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que aquela era a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias – um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.
De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...
(Vinícius de Moraes)

A relação entre paixão e criatividade

Essas duas forças intensas, capazes de romper as barreiras da razão, muitas vezes parecem caminhar juntas; o resultado dessa associação são obras de arte, música e literatura de inestimável valor não só para artistas e suas musas, mas para toda a humanidade (por Erane Paladino)

O NASCIMENTO DE VÊNUS (1482), de Sandro Botticelli: em geral, são tênues os limites entre os movimentos culturais e os processos psíquicos inerentes à condição humana do apaixonamento.

“Pois toda essa beleza que te veste
Vem do meu coração que é teu espelho;
O meu vive em teu peito, e o teu
me deste.”
Soneto XXII – Shakespeare, 1609

“Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do seu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu.”
Eu te amo – Chico Buarque e
Tom Jobim, 1980

Quantas poesias, contos e romances têm falado de amor e de dor ao longo dos tempos? Encontros ardentes e avassaladores e paixões impossíveis, permeiam o imaginário de homens e mulheres e afetam pessoas de diferentes classes sociais, em variados contextos históricos e culturais. Parece haver um paradoxo entre forças intensas capazes de romper as barreiras da razão para jogar no infinito um oceano desordenado de sentimentos que, ao mesmo tempo, inundam a alma de amor... e medo.
Quem nunca se viu, pelo menos uma vez, inesperadamente apaixonado? A condição pode parecer única àquele que a vive, mas as referências a esse estado aparecem de inúmeras formas, representadas por diferentes povos. Numa dimensão sociológica, podem-se discutir os limites entre movimentos históricos e culturais e/ou crenças como elementos propulsores de processos psíquicos inerentes a essa condição humana de “apaixonamento”.



Telas de Frida Kahlo retratam seu sofrimento físico
e perdas afetivas, assim como as obras de
Pablo Picasso ou Camille Claudel


Ao lembrar os referenciais existentes desde a Grécia Antiga, o sentido do amor vem associado a algo bom, belo e verdadeiro. Em seu livro Sem fraude nem favor (1998), o psicanalista Jurandir Freire Costa refere-se a O banquete, de Platão e define o texto como representante do amor/sentimento único, inconfundível, universal e intrínseco à natureza do ser humano; um impulso dirigido a um outro, homem ou mulher, do sexo oposto ou do mesmo sexo, “um composto afetivo feito de desejo”. Na narrativa sobre o tema, Platão cria um encontro entre amigos num banquete onde o anfitrião, Agaton, chama a todos para um debate. Em seu discurso, Aristófanes apresenta seu conceito de amor: “...Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite e nem de dia vos separeis? Pois se é isso que desejais, quero fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades, em vez de dois serem um só, mortos numa morte comum.”
A ideia de falta e busca da completude presentes neste texto, escrito nos idos de 360 a.C., remete aos princípios do amor romântico. Tristão e Isolda, lenda celta com alguns escritos que datam do século XI, assim como Romeu e Julieta, de Shakespeare (século XVI), também seriam exemplos das histórias do amor impossível e arrebatador, que para ser eterno conduz ao desespero e à morte.
Mas, de qual amor falamos? Discutir esta ideia traz controvérsias. Na visão do filósofo André Comte Sponville, apresentada em Pequeno tratado das grandes virtudes (1999), há três manifestações: Philia, Ágape e Eros. De forma sintética, podemos definir Philia como o amor associado à amizade, ao companheirismo e reciprocidade, enquanto Ágape traz a ideia de benevolência e caridade de forma humanitária e desinteressada. Por esta ótica, a paixão se instala onde surge Eros, um amor a serviço deste deus ciumento e possessivo. O tormento e o prazer vêm juntos, pois este desejo, às vezes incontrolável, brota da falta.
Na origem da palavra Pathos, no grego, contempla-se a ideia de sofrimento, paixão e catástrofe. O filósofo francês René Descartes (1596-1650) agrega um cunho singular ao conceito, articulando-o ao contato com o novo e associando-o ao padecer e ao agir. Diante da surpresa, somos impelidos a alguma reação que nos desacomoda. A vida, assim como a paixão, inevitavelmente pedem movimento e imperfeição. Se o que for passional sugere passividade, vê-se nessa manifestação amorosa o padecimento e algum tipo de subserviência a sentimentos intensos e também angustiantes. Afinal, o que seria de Tristão e Isolda se não houvesse uma espada a separá-los? Ou de Romeu e Julieta se não existisse a forte interdição entre as famílias? É fascinante observar (e sentir) no amor/Eros uma força inconfundível de prazer num encontro amoroso aparentemente único, carregado de momentos de plenitude, porém sempre acompanhados de forte angústia.

TEXTURA DA ILUSÃO
Quem é o objeto da paixão? Talvez aquele que traga a esperança do resgate de um elo perdido. A psicanalista Melanie Klein, inspirada em Freud, diz que o bebê, desde o seu nascimento, sofre uma angústia de morte diante de sensações como dor, fome e frio. Sua fragilidade física e biológica o leva ao desamparo emocional. O encontro com o prazer de ser acalentado e cuidado gera uma sensação de bem-estar vivida como plena. O mundo para um bebê seria traduzido por Klein em termos absolutos: a gratificação gera sensações prazerosas totalmente boas, assim como a frustração leva a sensações de dor, ameaça e sofrimento. “Bom e mau” representariam o maniqueísmo do universo psíquico do bebê em seus primeiros meses de vida.
A paixão faz reviver instabilidades deste vínculo frágil e primitivo de dependência e apego. O escolhido, objeto da paixão, geralmente, é alguém que representa a esperança de alcançar o objeto bom idealizado. Muitas vezes, a pessoa pela qual nos apaixonamos tem atributos sutis, capazes de ativar e trazer para o presente experiências afetivas de modelos da primeira infância. Detalhes como o tom de voz, a forma de olhar ou a textura da pele, por exemplo, podem ser mais importantes como elementos catalisadores da paixão do que outros atributos aparentemente bastante significativos. A imagem e as expectativas valem mais. Daí sua associação com a ilusão. Sensações de entorpecimento, carregadas de fantasias que parecem preencher por completo os enamorados, os levam a perder o apetite e o sono e a diminuir sua capacidade de concentração nas divagações quase surreais.

MEMÓRIA DA DOR
Diante da solidão e da incompletude inevitáveis da condição humana, surge a paixão com a fantasia e a promessa de uma vida plenamente feliz, numa tentativa emocional de retorno a algum estágio anterior que negue o desamparo, o medo e os limites impostos pela vida. O paradoxo, porém, está na força que acompanha o desejo – já presente nas palavras de Platão – de um encontro perfeito, onde duas metades se unem e se fundem – livrando-nos da dor. Mas só existe o desejo quando há a constatação da falta.
A paixão denuncia, tanto no adolescente quanto no adulto, a expectativa de uma vida sem dor, separação ou solidão. Este ideal de amor total emerge do vazio e do desamparo que ainda pulsa, grita e traz a memória de dor. Há nos primórdios do desenvolvimento uma lembrança do vazio, fruto da sempre dolorida separação mãe/bebê.
E como a vida surpreende, a depender das condições, é possível encontrar possibilidades, criar-se. Segundo o psicanalista Donald Winnicott, há um espaço potencial, uma espécie de área infinita de separação: o bebê, a criança, o jovem ou o adulto podem preenchê-lo criativamente com o brincar que, com o tempo, transforma-se na herança cultural. Pode-se pensar nas dores da separação como bases psíquicas para a expressão artística e para o trabalho criativo como meio de reparar e atribuir outro significado à dor. As telas de Frida Kahlo, por exemplo, retratam explicitamente seu sofrimento físico e suas perdas afetivas, assim como as obras de Pablo Picasso ou Camille Claudel expõem as angústias de amores difíceis.
Apaixonados incansáveis são os poetas, os pintores, os escritores, os músicos, ou mesmo os médicos, professores, psicanalistas... Em comum têm o fato de construírem um universo a partir de um mundo interior muitas vezes dolorido. De alguma forma, deve-se a eles toda a gratidão por terem a generosidade de expor ao mundo suas almas sofridas, num movimento criativo de reavaliação que acaba por tocar no âmago de cada um de nós, construir novos paradigmas, traçar sempre um novo olhar para as infinitas e, por vezes, impensáveis possibilidades.

PARA CONHECER MAIS
- Pequeno tratado das grandes virtudes. A. Comte Sponville. Martins Fontes,1999
- Sem fraude nem favor. Jurandir Freire Costa. Rocco, 1998.
- O Brincar e a Realidade. D. W. Winnocott. Imago, 1975.
Erane Paladino é psicóloga clínica, coordenadora e professora do Departamento de Psicodinâmica do Instituto Sedes Sapientiae, autora do livro O adolescente e o conflito de gerações na sociedade contemporânea (Casa do Psicólogo)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Ia esquecendo!

Na mesma revista, a resenha do livro Cadernos sobre o mal, de Joel Birman, chamou minha atenção. Ei-la:



Em Cadernos sobre o mal o psicanalista e psiquiatra Joel Birman analisa novas formas de violência e de agressividade, próprias da cultura contemporânea. Para isso, recorre ao trabalho de teóricos como Sigmund Freud e Jacques Lacan, dos filósofos Theodor Adorno, Walter Benjamin, Michel Montaigne e Nicolau Maquiavel, que abordaram o tema em suas obras. O novo livro está organizado em três partes: na primeira, questões sobre agressividade e violência são enfocadas sob a ótica do discurso psicanalítico; na segunda, é enfatizado o campo da política, no qual a crueldade se faz presente no exercício do poder; na terceira, Birman coloca o cenário brasileiro em pauta e, nesse contexto, mescla ensaios analíticos com artigos curtos. Em sua análise, o autor - que abordou o assunto em Arquivos do mal e resistência - traça paralelos e aborda a delinquência entre as camadas sociais mais pobres, que tem como correspondente a corrupção e o crime do "colarinho branco" entre as classes média e alta. Para Birman "a perseguição  a paranóia são, sem sombra de dúvida,as formações psíquicas mais bem distribuídas entre nós."

Para atiçar a curiosidade!


Acabei de ler a Mente e Cérebro deste mês... excelente!
(Cabe registrar que a série A Mente do Bebê, em 4 revistas, é imbatível!)
Enfim... Destaco:
- PRAZERES E DESPRAZERES DO TRABALHO (Alain de Botton). Hoje parece impossível imaginar que alguém possa ser feliz se for improdutivo; por muitos séculos, porém, remuneração e satisfação foram consideradas incompatíveis;
- POR QUE SOMOS CEGOS? (Vilayanur S. Ramachandran e Diane Rogers-ramachandran). Embora muitos acreditem que os olhos funcionam como câmeras, estudos mostram que nossa capacidade de apreender informações visuais é limitada;
- CONSUMO, LOGO EXISTO (Roberta de Medeiros). Comprar exageradamente pode ser uma forma patológica de aplacar angústias; muitas vezes, a compulsão é sazonal – festas de fim de ano e férias convidam ao excesso;
- INFLUÊNCIAS FRANCESAS NO BRASIL (C. Lucia Montechi Valladares de Oliveira e Caterina Koltai). Contribuição de Jacques Lacan e de outros pensadores marcou a teoria e a prática da psicanálise brasileira;
- A RELAÇÃO ALÉM DAS PALAVRAS (Rubens Kignel). A comunicação entre a mãe e o bebê ocorre de maneira sutil; mensagens e afetos podem ser transmitidos de forma inconsciente por meio da respiração e dos movimentos corporais.
Alguns dos artigos podem ser lidos em: http://www2.uol.com.br/vivermente/sumario/

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Felicidade não tem fim, tristeza sim - por Fabrício Carpinejar (claro!)

"Quando não era pai, o riso pedia um motivo. Uma função. Uma explicação. A piada tinha que ser muito engraçada. Hoje a vida é mais engraçada do que a piada
Meus filhos nunca perguntam: por que está triste? Eles me fazem feliz antes de perguntar. Só passei a rir à toa depois da paternidade. Rir por nada mesmo. Rir porque vejo meu filho desenhando uma casa com pernas ou reparo no modo como ele segura o garfo, igual à avó. Ou observando a concentração da filha diante da televisão ou seu bocejo esquecendo a proteção das mãos. Quando não era pai, o riso pedia um motivo. Uma função. Uma explicação. A piada tinha que ser muito engraçada. Hoje a vida é mais engraçada do que a piada. Ao largar a pasta do trabalho, há um alívio de que serei abraçado pelos filhos até ser derrubado. Levantarei as pernas para cima, desistindo das reservas. Meu riso dá cambalhotas sem colchão.
Eu recebo diariamente pilhas de livros. Poderia confessar que felicidade é permitir que o Vicente abra os pacotes e me conte os títulos. Ele fica alucinado em ajudar. Mas os livros foram se espalhando, tomando os corredores. A esposa me advertia do avanço do escritório pelas peças. Tomei jeito e resolvi pedir novas estantes. Garantiria folga momentânea do problema e o filhote seguiria rasgando os envelopes.
O marceneiro chegou, amaciado de sotaque espanhol. Expliquei o que desejava e fui para minhas atividades. Não cessava de falar enquanto encaixava os parafusos.
– Em que você trabalha?
– Sou escritor e professor.
– Professor de onde?
– Da Unisinos...
– Ah, a Unisinos, minha filha estuda lá, no curso de Letras, ela é aplicada.
(Neste momento, vi que ele apenas encontrava um motivo para falar da filha. Achou o sinal do petróleo e não cessaria sua perfuração.)
– Que bom, parabéns...
– Não, parabéns para ela, que não puxou o pai e se dedicou a estudar. Quando olho para minha filha, me sinto realizado. Tudo o que passei na vida não teve borracha.
– Não teve borracha?
– Pai não apaga nada que viveu depois dos filhos. Não põe fora nem um desenho...
Eu freei uma gargalhada desavisada.
Na última semana, fui ao lançamento de um livro de alunos da Unisinos. Quando me escorei para pedir um autógrafo, Teresa, uma das autoras, me encarou:
– Põe esse livro na sua estante.
– Sim, vou colocar.
– Na estante de meu pai.
– Como?
– Ele fez sua biblioteca. Tenho orgulho dele. Me ensinou a escrever e nem sabe.
O lápis que ele usava na orelha para medir a altura das paredes, sua filha pegou para escrever e alargar as palavras. Felicidade é quando o filho coincide com o pai e a mãe – e nenhum deles precisa ter consciência disso."
(Fabrício Carpinejar - claro!)