domingo, 4 de abril de 2010

Tempo de mudança


Para ser qualquer coisa na vida é preciso ter experiência.
Seja por meio de livros, viagens, pessoas, filmes...
entregas, abandonos, ousadias, liberdade...
Para fazer qualquer coisa na vida é necessário
inspiração: seja uma paixão, uma obra de arte, um dia de sol, um beijo roubado...
transpiração: 'horas-bunda' na cadeira...
consciência: para saber onde se quer chegar...
obstinação: que dá força, garra, energia...
disciplina: para manter tudo isso pelo tempo necessário.
Para mudar alguma coisa na vida é necessário CORAGEM.

Feliz Páscoa!


"Páscoa é ser capaz de mudar,
é partilhar a vida na esperança,
é lutar para vencer toda sorte de sofrimento.

Páscoa é dizer sim ao amor e à vida,
é investir na fraternidade,
é lutar por um mundo melhor,
é vivenciar a solidariedade.

Páscoa é ajudar mais gente a ser gente,
é viver em constante libertação,
é crer na vida que vencer à morte.

Páscoa é renascimento, é recomeço,
é uma nova chance para melhorarmos
as coisas que não gostamos em nós.

Para sermos mais felizes por conhecermos
a nós mesmos mais um pouquinho e vermos
que hoje somos melhores do que fomos ontem."
(Autor Desconhecido)


Pode parecer piegas... mas quem resiste ao "tuelhinho"?!

sábado, 3 de abril de 2010

Traição

Traição, pra mim, num relacionamento amoroso,
nunca significou apenas fazer sexo com outra pessoa.
Traição é não compartilhar.
Traição é olhar mais pra fora do que pra dentro da relação.
Traição é fazer o outro achar que está tudo bem, quando na verdade não está.
Traição é gastar tempo, energia e dinheiro com outro(a)
e voltar pra casa dizendo que não tem tempo, energia e dinheiro.
Traição é dar tudo o que tem pro(a) outro(a) e não sobrar nada para o parceiro que espera em casa.
Traição é o cinismo de manter a casa com o parceiro porque a ideia de ninho lhe agrada.
Traição é não assumir que está em uma zona de conforto que te faz não ter coragem de arriscar.
Traição é manter aparências simplesmente pelos filhos.
Traição é usufruir do conforto que um relacionamento estável proporciona,
mesmo depois de saber que não resta mais nada.
Traição é colocar a culpa apenas no outro.
Traição é não dar mais conta de se entregar
e achar que a mantença da relação cabe apenas ao outro.
Traição é imputar a responsabilidade da tua felicidade a outra pessoa. 
Traição é ser falso-moralista!

Amigos

“Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que ‘normalidade’ é uma ilusão imbecil e estéril.” (Oscar Wilde)

P.S.: Fer, isso foi pra te encorajar a criar o teu blog! Tens esse brilho e o tom, amiga! Beijos!
Estavas comigo em quase todo o tempo em que descobri muito do que sou...
Foste meu amigo, amante, companheiro, até por me fazer descobrir o que não gosto...
o que não quero.
Nada nunca teve limites, ou talvez tenhamos testado com liberdade vários deles...
Estás tatuado em mim.
É claro que isso tudo também é da minha essência, senão assim não teria sido,
pelo menos não com tanta intensidade...
Por isso as tuas reações agora me surpreendem...
Por onde andaste todo esse tempo que agora não me reconheces?
Mais voltado pra fora do que pra dentro?
Porque sempre fui e me mostrei como uma combinação de todas elas:
a romântica, a companheira, a puta, a menina, a profissional, a sonhadora, a pragmática, a prendada, a mãe, a amante, a intelectual...
a espanhola, a portuguesa, a germânica...
a Lúcia, a Amélia, a Luíza...
essa ânsia!
Todas me habitam! Nenhuma me divide.
Agora, pela solidão que me preenche, é natural colocar pra fora com muito mais intensidade...
e floreio, invento, crio mais personas...
e rio, grito, choro, lamento, me divirto, reclamo, relembro...
Me recrio nesse pequeno espaço que agora construo sozinha.

Partiu-se

Há alguns anos passei por uma situação muito parecida com a que estou vivendo agora.
E nesse turbilhão, quase que simultaneamente, conheci uma pessoa que me dizia que estava na hora de’u bater as asas e alçar novos vôos...
Relendo diversas das coisas que nos escrevemos na época, percebi que tinha realmente vontade de voar, mas não consegui.
Veio a Duda e ela é uma pessoinha sem a qual não me imagino.
Talvez sob esse aspecto faça sentido que o vôo não tivesse se dado naquele momento.
Agora sim.
Algo se partiu.
E o que se parte, partido está, não há conserto.
Enfim... aconteceu, Lobo. Obrigada pela participação tão especial...
Aos meus amigos de sempre, pelo carinho e pela força...
E a ti, Nando, pela companhia constante...

Odisséia


"Estou fazendo um curso fantástico sobre literatura. Despretensioso, divertido, cheio de informações... E tocante. A cada terça-feira, eu aprendo um pouco mais sobre os livros, a magia das histórias e sobre mim mesma.
A história que é o nosso norte chama-se Odisséia. A obra, junto com a Ilíada, é considerada o começo da Literatura Ocidental. Assim como os Contos de Fadas, as histórias gregas eram contadas oralmente; e um dia, alguém resolveu reuni-las e escrevê-las. Essas histórias contam, em suas linhas e entrelinhas, a cultura e o jeito de ser de um povo. E quem conta a história de um povo, conta a história de uma pessoa, qualquer pessoa... Porque somos feitos da mesma massa, da mesma essência.
A Odisséia é a história de Ulisses (em grego, Ulisses é Odisseu - daí o nome), Rei de Ítaca, que deixou sua terra, sua amantíssima esposa Penélope e seu filho Telêmaco para ir lutar por dez anos na Guerra de Tróia, ao lado de outros reis gregos como Menelau e Agamenon. Lá, Ulisses usou a força das armas e o poder de uma idéia inteligente (um cavalo de madeira) para vencer os exércitos e as densas muralhas de Tróia. Merecidamente, quis voltar para casa. Mas, ao sair das terras troianas, ofendeu o deus do sol, Hélio, que jurou impedi-lo de voltar para Ítaca. Também ficou ofendido Poseidon, o deus dos mares, quando Ulisses atacou um de seus filhos - o ciclope Polifemo - e saiu gabando-se de sua sina de herói invencível. Os dois deuses fizeram de tudo para que Ulisses não retornasse ao seu lar, e assim esse retorno durou mais de vinte anos - vinte longos anos de batalhas, amigos mortos, cansaço, aventuras, desistências, derrotas e vitórias. A Odisséia é a história dessa longa viagem.
Não é à toa que as aventuras do Rei de Ítaca chegaram até nós. Uma obra de arte só é obra de arte se resiste ao teste do Tempo, e continua sendo vista e sentida pelas pessoas, independente de suas crenças, nascenças, tempo histórico ou procedência geográfica. Isso quer dizer que nelas, nessas obras, há algo que diz respeito ao que é ser humano. E quando a alma se comunica com outra alma, não há barreiras de compreensão. O encantamento e reencantamento se faz. Há em histórias como a Odisséia metáforas da vida, que se dão nos mínimos detalhes e entrelinhas.
Ouvi da minha doce e inteligentíssima professora que a maior metáfora da Odisséia é que cada um pode ser o herói de sua própria história. Ler essa história e acompanhar a sofrida e vitoriosa trajetória de Ulisses me fez pensar no que faz de uma pessoa um herói, ou uma heroína. Se há pessoas vitoriosas transitando por aí, também há pessoas derrotadas e cansadas; pessoas que perderam algo, que foram aniquiladas em suas chances de vencer, e nem querem mais isso. Não se trata da obsessão maníaca de vencer por vencer, mas sim de se querer algo, nem que seja um gosto bom de tranquilidade. De tantos guerreiros que saíram das ilhas gregas, de tantas pessoas envolvidas na Guerra de Tróia e na volta de Ulisses para casa, apenas ele chegou a Ítaca e alcançou o seu prêmio, porque algo nele havia de diferente, um brilho especial. Em que forma foi feita um herói, ninguém sabe. Talvez seja um dom, uma benção, o resultado de muito esforço e preparo, uma postura diante do mundo, ou tudo isso junto. Importante é entender que um herói se faz não em um momento ou uma situação, mas por toda uma vida de aprendizagem e retomadas. Ser herói não é nada fácil.
O caminho do herói é a aventura. Para aventurar-se, Ulisses teve que deixar sua casa, sua família, seu amor, seu filho, sua segurança. O caminho da aventura exige renúncia do calmo, do tranquilo, do descanso. Há que se buscar a mudança, o movimento, aquela emoção que sacode a alma. Aventurar-se é se jogar em direção ao desconhecido, sem saber do futuro. Sempre, um caminho sem volta. Talvez, um caminho difícil. Mas, ainda assim, um caminho de glória. O herói que vive em nós, se não está amordaçado e calado, sabe que não adianta esperar e esperar para que a vida aconteça diante de nós. A vida está em algum lugar bem longe, bem perigoso e cheio de paisagens, das mais horrendas as mais belas. E para ver tudo isso, para ter a vida, é preciso buscá-la, com coragem. Essa disposição, essa força pra lutar vem de dentro. E pra dentro ela volta a cada batalha vivida, seja ela vencida ou não. O herói dentro de nós precisa ter vez pra falar, precisa ser vivo e forte.
Nenhum herói colhe só sorrisos em sua trajetória. Dos mais antigos aos mais modernos, eles passam por um duro processo de amadurecimento, de lapidação, que em boa parte dos casos, se dá pela dificuldade, pela dor. Ulisses viu seus companheiros morrerem um a um. Desceu ao Hades (inferno) e teve que olhar a morte. Sentiu saudades de sua esposa dia após dia. Não viu o filho crescer. Por várias vezes, teve que reviver a história de Tróia e todos os horrores que a guerra traz. Enfrentou os deuses irados. E, quando voltou, sozinho, teve que se passar por mendigo para ver sua casa tomada por homens que o traíram de diversas maneiras e destruíram seu patrimônio. Ele sofreu, e muito, como sofremos todos, os que optam por andar ou por parar. Porém, ainda que dolorido, o caminho da aventura sempre traz bons frutos para quem o trilha até o fim. Sempre.
Do passo a passo da Odisséia, várias lições. Os heróis não vencem sempre. Os heróis se cansam, mas não desistem. Os heróis usam de força e inteligência nas devidas proporções. Os heróis têm orgulho de si mesmos. Os heróis confiam em suas armas. Os heróis cometem erros banais quando deixam que a vaidade tome conta deles. Os heróis vão ao fundo da dor e ao pico da alegria e satisfação, e aproveitam ambas as situações. Os heróis ouvem os mais sábios. Os heróis lutam contra o destino, e às vezes conseguem mudá-lo. Os heróis são dispostos. Os heróis reconhecem que o caminho é mais importante que a chegada. E, acima de tudo, os heróis são apaixonados por um ideal que guia a sua própria vida, porque é da força da paixão que vem a força pra chegar ao final e encontrar a paz.
A vida apresenta-se diante de todos nós como um caminho de volta para Ítaca. Nebuloso, incerto, turbulento, longo. Cheia de mares revoltos, períodos de calmaria, aventura, e um desejo, lá no fim, de estar bem, de estar em casa, seguro e tranquilo, com a missão cumprida. Algumas pessoas passam por esse caminho e são tragadas por ele, se deixam vencer pelo desânimo, pela mediocridade, pela corrupção de seus sonhos e ideais. Outras, até tentam, mas acabam por desistir. Mas há alguns heróis. Gente que passa pelo mesmo caminho, e faz a escolha de lutar, incansavelmente, até chegar lá. O que será que há com eles?
Os gregos acreditavam que os heróis eram mortais que tinham sido untados pelos deuses em uma calda especial, que os enchia de bravura, força e coragem. Mas há quem acredite que os heróis são aqueles de espírito forte e luminoso, que escolhem ser assim, que escolhem lapidar-se para enfrentar a dor. E, o mais lindo de tudo, enfrentam. E mesmo quando perdem, acabam ganhando. Os heróis são pessoas especiais, ainda que não sejam famosos como Ulisses ou Aquiles. São vencedores não porque ganham, mas porque escolheram encarar a adversidade ao invés de evitá-la.
Há uma passagem da Odisséia que é de tocante beleza e simbolismo. Ulisses e seus marinheiros passam pela Ilha das Sereias, monstros marinhos que possuíam metade do corpo em forma de mulher e metade em forma de aves de rapina. Seu canto, extremamente belo e misterioso, atraía os marinheiros para o mar, e depois de ficarem loucos, eles atiravam-se ao mar, e acabavam por morrer afogados. Na ilha, ficavam apenas os esqueletos, recobertos por peles ressequidas, e o mar tingido de sangue. Avisado pela bela feiticeira Circe desse perigo, Ulisses amassa com as próprias mãos um pouco de cêra, e entrega aos seus marinheiros para que eles tapem os ouvidos e não se deixem envolver pelo canto. Quanto a ele, pediu que o amarrassem num mastro, bem amarrado, e que não tapassem os seus ouvidos, pois ele queria passar por ali, mas não queria deixar de ouvir o canto tão belo e sedutor. Queria experimentar o perigo para poder saber o que venceu.
Claro, Ulisses teve sorte. Mas não só isso. Ser o herói da própria história é uma escolha e um mérito de cada um. E que bom que é assim."

Não, pessoal, não é meu... não registrei quem era o autor(a), se alguém souber e puder me dizer, agradeço! Só achei que valia postar!  

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Como é que é?!?!?

"'Metade do disco I AM... fala de quem sou por trás de toda a maquiagem, as luzes e o drama de uma celebridade. E Sacha Fierce é o lado mais sensual, agressivo e glamouroso que surge quando estou no palco', conta Beyoncé, sobre o disco que é a base de sua série de concorridos shows pelo planeta.
Sim, esta estrela é única, até quando gera polêmica, ao afirmar que alimenta duas personalidades diferentes: a Be enquanto essência - mulher sensível, que canta músicas que expressam emoções -, e Sasha Fierce, pura ousadia e presença marcante por onde passa. 'Às vezes você não quer pensar; quer apenas sentir-se bem. Assim é ela: a gata da festa. Ela é, mas eu, não. Ela é meu alterego. Finalmente estou revelando quem sou'." (Por Renata Rode).

Mulherada, alguém aí se identificou?! rs

Quem quer uma vida de "e se"?

A felicidade não é eterna, mas a desistência pode ser para sempre

"Quase todos nós temos algo que gostaríamos de ter feito. E não fizemos. Um plano mirabolante que tinha tudo para dar certo, mas que nunca tentamos. Aquelas ideias que parecem ótimas na mesa de bar e, como os vampiros clássicos, escondem-se nos nossos porões na primeira luz do sol. Tenho amigos que querem ter um café, outros uma livraria, há os que querem ter uma livraria com café ou um café com livraria. Antes havia os que queriam ser repórteres da National Geographic, os que queriam filmar com Fellini e até os que queriam ter uma família de dez filhos. Conheço um monte de gente que desejava ter feito mais do que ousou fazer. Mas, em algum momento, deixou passar a chance de recosturar seus sonhos com o fio do possível. Preferiu se deixar convencer que ser adulto era assumir uma ideia de responsabilidade que excluía a possibilidade de se reinventar a qualquer momento. E isso é certo: pode não existir amor para sempre, nem vida para sempre, mas descobri que existe desistência para sempre.
Suzi e Marcelus são meus amigos de adolescência. E eles estão nessa história porque tiveram a ousadia de reinventar a vida. Não aos 20, mas aos 40. Eles rejeitaram aquilo que eu chamo de "vida de... e se?". E se eu tivesse feito isso e não aquilo? E se eu tivesse tido coragem? E se eu tivesse me divertido? E se eu tivesse sido mais corajoso? E se eu tivesse amado mais? E se? E se? E se? Não há nada mais triste do que uma vida de "e se?".
Suzi e Marcelus Vieira vivem em Ijuí, no interior do Rio Grande do Sul. Ijuí é uma cidade de uns 70 e poucos mil habitantes, coberta de uma poeira tão vermelha e persistente que gruda na alma da gente. Quem mora lá nunca terá a chance de pisar no mundo com um tênis branco. Mas quem quer um tênis branco? A cidade vai bem quando chove e faz sol na medida certa para o soja ser lucrativo. Ou seja, depende do imponderável e do Banco do Brasil. Apesar de ter deixado Ijuí há mais de 20 anos, volta e meia me pego no meio do trânsito de São Paulo pensando: "mas e como será que anda o soja nesse ano, hein?"
Comer bem, para a maioria dos ijuienses, é lotar o prato num dos muitos restaurantes a quilo. Ijuí se orgulha de ser a capital brasileira das etnias e isso significa que ela é povoada por descendentes de alemães, italianos, letos, austríacos, poloneses, russos e várias outras nacionalidades que não estou lembrando agora. Em comum, eles têm essa certeza de que nada pode ser melhor do que pagar nem mais nem menos, mas exatamente o que se come. Por isso, os quilos se tornaram um estrondoso sucesso por lá. Chefes de família que nunca admitiram comer fora de casa encontraram uma boa razão para experimentar a modernidade de comer em restaurante. E muitas mulheres só conheceram a delícia da vida social a partir do advento dos quilos. Há toda uma antropologia dos quilos que, infelizmente, a academia deixou passar.
Com isso, não estou criticando nem os quilos nem a comida de Ijuí. Longe disso. Foi lá, comendo a comida da minha mãe, que eu descobri que comer é uma fonte inesgotável de prazer. Apenas quero situar o contexto gastronômico onde Suzi e Marcelus começaram a salpicar os primeiros ingredientes de sua utopia.
Tirar férias, em Ijuí, é passar uma temporada numa das praias do Rio Grande do Sul. Eu sei que tem gente que não acredita que o Rio Grande do Sul tenha praias que não fiquem em Santa Catarina, mas eu garanto que tem. Os ijuienses preferem as mais movimentadas. E, de preferência, em apartamentos. Se quem mora em cidade grande busca sossego, quem mora em cidade pequena quer "ver gente". Não é uma regra absoluta, mas quase. Para que tentar algum lugar novo se Tramandaí, Atlântida ou Capão da Canoa são garantia certa de diversão? E, ainda por cima, com um guarda-sol ao lado do outro?
De novo, não estou criticando as férias de ninguém. Longe disso. Apenas situando a cultura turística do lugar onde Suzie e Marcelus começaram a esboçar a nova receita de suas vidas.
Quem nasce numa cidade do interior, um dia quer sair. Ou finge que quer. Quem pode usa o pretexto de fazer universidade para se transferir para Porto Alegre ou outra cidade um pouco maior. Mas tive amigos mais radicais, que sem arranjar desculpa melhor, foram tentar achar ouro em Serra Pelada. Deixar a cidade pequena em algum momento é uma espécie de jornada do herói. Não sei qual é a estatística, mas a maioria acaba voltando.
Suzi e Marcelus apaixonaram-se ainda na adolescência. Ensaiaram faculdade em Porto Alegre quando chegou a hora, depois separaram-se por uns tempos. Marcelus se aventurou em Londres, Suzi quase casou com outro. Um dia fiquei sabendo que os dois tinham se casado e moravam em Ijuí. Compraram um apartamento, decidiram não ter filhos e cuidavam juntos da loja de moda jovem mais bacana da cidade. Encontrava-os quando ia à Ijuí visitar meus pais e me parecia que viviam bem. Nesse período, eu tinha muitos amigos olhando desconsolados para as ruínas de seus sonhos de juventude. Mas Suzi e Marcelus não estavam entre eles. O deles parecia ser um destino resolvido.
Dois anos atrás eles me ligaram. Excitadíssimos. Tinham alugado uma casa de campo na Toscana, daquelas de cinema, e estavam levando para lá um grupo de 10 pessoas. Marcelus conciliara a administração da loja com cursos de culinária, nos anos anteriores, e tinha virado um chef. Suzi dedicara-se a estudar o mercado do luxo com o mesmo talento comercial que ela sempre tivera para vender roupas de grife numa cidade que nem sempre tem dinheiro. Os dois se associaram a Adriana e Celso Vedolin, ele radiologista, ela dentista, que também acharam que estava na hora de redescobrir a vida lá fora. E em vez de ficar só sonhando, como a maioria de nós, fizeram.
O projeto deles era alugar uma casa maravilhosa em algum lugar interessante do mundo e levar para lá um grupo de pessoas para comer e beber por uma semana. Ao longo do dia, quem quisesse poderia ir às feiras e vinícolas escolher verduras, legumes, temperos, trufas, pães, queijos, cogumelos porccini, presuntos e vinhos com Marcelus. Mas o único compromisso do grupo seria se reunir na cozinha no final do dia para aprender com ele a fazer um prato da gastronomia local. E depois degustá-lo com o melhor vinho. Simples assim.
E tão sofisticado. Partiram, num dia de setembro de 2007, para uma vila em Peccioli, cidadezinha entre Florença e Pisa, para fazer uma bella vita misturando os ingredientes mais frescos da sua feira pessoal de desejos: viajar, comer e beber. E, contra todas as probabilidades, deu tudo certo. Os hóspedes também se sentiram como se estivessem num filme que podia se chamar Sob o sol da Toscana. Seus anfitriões desdobravam-se no café da manhã, servido a qualquer hora, para que cada um se sentisse realmente em casa, e nas pequenas delicadezas. Como as flores que Suzi colhia a cada manhã para aninhar sobre a cama de cada um, e o pão que desembarcava quente e crocante da padaria de um vilarejo que poderia ser o Cinema Paradiso. E, à noite, na cozinha, Marcelus fazia arte. Como o linguini com trufas brancas que era servido com um Chianti ou um Tignanello, seguido por um Tiramisu.
Suzi e Marcelus tinham acabado de inventar um filme para botar dentro da sua vida. Não ficaram só falando ou lamentando uma existência que se estreitava. Alargaram seu mundo com as mãos e a força de um desejo que não deixaram morrer. Sempre fico imaginando como deve ter sido cada noite em Ijuí, quando tudo ainda podia dar errado. O que ia pela cabeça enquanto vendiam calças, camisas, casacos, vestidos. Quando faziam contas. Quanto medo eles não tiveram. Nem mesmo a casa eles tinham visto de perto, já que não havia dinheiro para esse investimento. Iam selecionando as opções pela internet e um amigo que morava na Itália viajava até lá para conferir. E se não entendessem o italiano? E se as pessoas não gostassem da comida? E se tivesse um chato que azedasse um grupo tão pequeno? Tudo podia acontecer. Até mesmo dar certo.
E deu. Quem comprou a ideia também queria essa semana de filme. Um grupo de amigos numa cozinha de vários séculos, tão cheia de aromas quanto de histórias. As conversas entre cachos de uva, tomates espoucantes, ramos de alecrim e garrafas de vinho. E a luz dourada do fim do dia atravessando o vidro da janela para pousar sem pressa na tampa das panelas. Cada hóspede se tornou melhor nessa semana em que a vida finalmente cumpria a si mesma.
No ano passado eles acolheram seus hóspedes em uma mansão de pedra do século XVII no vilarejo de Cabrières d’Avignon, a 33 quilômetros da cidade de Avignon, na Provence. Nenhum dos dois fala francês. Mas estavam inebriados por filmes como A Glória de Meu Pai e O Castelo de Minha Mãe. Estudaram a culinária local, pesquisaram os ingredientes da estação, experimentaram o perfume de cada vinho. E de novo inventaram sua nouvelle vie. Nesse ano, alugaram uma casa na Itália e outra na França. Levarão um grupo para a Toscana e outro para a Provence. No ano que vem querem instalar-se em alguma cozinha cheirosa de uma ilha grega. Al Mondo (www.almondo.com.br) é o nome do melhor de todos os seus sonhos, porque é um sonho que deixou de ser. Não por desistência, a causa mortis mais frequente dos sonhos, mas por coragem.
Depois que tudo dá certo, parece fácil. Mas a vida de cada um de nós se decide é muitos meses e até anos antes, quando a gente não sabe se vai dar certo. E mesmo assim percebe que a coisa mais inteligente a fazer é tirar a cabeça do lugar antes que seja tarde. Eu mesma me arrependo de várias coisas, mas nunca de ter tirado a cabeça do lugar. Toda vez que o senso comum achou que eu estava destrambelhando fui parar num ponto interessante da vida.
Suzi e Marcelus não sabiam se daria certo, mas tinham certeza que fizeram tudo para que desse certo. Marcelus sempre foi um pouco como o ratinho do Ratatouille, sentindo aromas pelas cozinhas. Quando se aventurou em Londres, trabalhou nas cozinhas de pubs e restaurantes, como tantos imigrantes. Mas, diferente da maioria, aproveitou para observar e aprender. Em Porto Alegre, passou anos fazendo as compras de uma cooperativa ecológica, saía com a caminhonete por estradinhas de terra pelo interior do Rio Grande trocando ideias junto ao fogão a lenha dos produtores. Quando se estabeleceu na loja, começou a viajar para fazer cursos de culinária.
Suzi e sua irmã, Sandra, são as melhores vendedoras que eu conheço. Já andei muito por aí, mas nunca vi nada igual. Filhas de alfaiate, elas conhecem os tecidos, os cortes, as texturas. São talentosas no gosto, sabem comprar as peças certas e, principalmente, sabem vender. São boas de conta, não lembro de tê-las visto perdendo dinheiro. Suzi é uma mulher que sonha com os dois pés metidos em sapatos interessantes, mas com os saltos bem fincados no chão.
Foi com tudo o que são que Suzi e Marcelus mudaram o cardápio de sua vida. Eles seguem morando em Ijuí, a loja acaba de se mudar para uma casa grande, com uma cozinha profissional no piso superior, onde Marcelus dá cursos à noite e prepara jantares por encomenda. Suzi e Marcelus têm família e amigos na cidade, acham que Ijuí garante uma qualidade de vida que não teriam em outro lugar. Passam o ano dando duro na loja, experimentando receitas, degustando vinhos, assistindo filmes, estudando livros, selecionando músicas. Quando chega a primavera, fazem as malas e acordam numa casa com vista para o mundo.
Na despedida do último hóspede, antes de voltar para Ijuí, eles viajam uma derradeira vez. Vão em busca do pedaço do planeta onde acordarão na primavera seguinte."

ELIANE BRUM
Repórter especial de ÉPOCA, integra a equipe da revista desde 2000. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de Jornalismo. É autora de A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).

P.S.: Obrigada, Nando!

A pergunta que não quer calar II

Quantas pessoas cabem em uma cama
ou no colchão de amar?!

Seu nome (de Fabrício Corsaletti)

Recebi com carinho e compartilho com vocês com o mesmo carinho, porque vale a pena:

Miss Perfeita

  
Modelo: Luíza Gassenferth Freyesleben Ferreira

Lulú, me recuso a dizer o óbvio, lindona!
E que arrasas sempre!
rs
Desejo cada vez mais sucesso!
Que Deus te ilumine e conserve assim: linda, simpática, querida, profissional como deve ser!
Boa estada na África do Sul!
Beijos!
(Quem quiser mais, acesse: http://www.valisere.com.br/fotos/)

Quero deixar claro que a propaganda é da minha amada sobrinha - que nos orgulha a todos por, apesar dos obstáculos, cansaços e dificuldades, ter chegado onde chegou - , mas como o texto da campanha tem tudo a ver com o que sempre tenho dito e repetido aqui, até vale transcrever:

"Nem só de glamour vive uma mulher.
Foi-se o tempo das que sonham acordadas,
com príncipes em cavalos brancos,
com flashes e tapetes vermelhos.
A mulher de hoje sou eu e você
e, cá entre nós, não temos muito de princesa.
É a vida que nos excita. O hoje e o amanhã
com seus segredos e suas verdades.
Com suas conquistas e seus desafios
E, claro, queremos nos sentir amadas,
desejadas, femininas sempre.
Mas antes de tudo, queremos nos sentir confortáveis com quem somos,
verdadeiras
de bem com o mundo, de bem com a vida
Afinal, tudo tem seu tempo.
Tempo de ser menina, de ser profissional,
de ser amiga, de ser mulher,
de ser companheira, de ser mãe,
de ser amante, de ser você!
Muitas mulheres em uma, mas sempre você,
de um jeito leve, lindo, vivo."
(Valisère)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Miss Imperfeita

"Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, marido (se tiver), telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros..
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias..
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si..
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante'
(Martha Medeiros)

terça-feira, 30 de março de 2010

Mil faces...

Ontem precisava tanto ler esse post da Andréa, que vasculhei o blog dela várias vezes sem êxito... Expliquei a ela e pedi... Disse ela que sim, Freud explica a minha cegueira... e gentilmente mandou pra mim o fantástico texto por meio do qual conseguiu nos definir tão bem...
Ei-lo:

"Sabe que eu gosto do nome do seu blog? "Mil faces de Luiza".
É que quando escrevo, me sinto assim, mil faces disputando.
Cada dia escreve uma, cada dia um enredo.
É quase um funcionamento esquizofrenico, ou medium em Centro Espírita, cada dia uma entidade, cada dia baixa uma.
E quem escreve, quem se arrisca a escrever, tem que ser um pouco fragmentária.
Diria mais, quem escreve precisa ter coragem.
Coragem para circular naquilo que somos, imaginar o que poderíamos ter sido, e não fomos.
Ser também observador, ladrão, pescador.
Olhar a vida do outro; roubar frases, gestos, estórias; pescar sentidos, ilusões.
Depois bater tudo isso, liquidificar em mil pedaços e aos poucos, com todos esses retalhos ir compondo.
Cacos, pedaços, todos eles contam verdades, minhas verdades. Tuas verdades espelhadas.
É porque a verdade nunca é única, reside em várias moradas.
Se cada um possui a sua, eu possuo várias.
E assim, no susto de ser tantas, viver se tornou uma surpresa.
Vivo aos pulos, na ansiedade de quem não se sabe.
Tenho dias de calmaria, e outros de turbulência.
Acordo uma, durmo outra.
Quantas sou? Não sei dizer.
A vida é tão rica, tão cheia de possibilidades que, ser uma só sempre me pareceu falta de imaginação. Meu destino se esconde no mistério.
Mil fragmentos, combinações.
É na palavra que encontro o ponto de equilíbrio que internamente não possuo.
Tecendo inconsciente, fio de letra, calmaria.
Fio de outro, possibilidades, construções.
Tenho dias de senhora, moça pura, pudica, carola, desvairada.
Dias de santa louca e meretriz abandonada.
Dias de bem resolvida, dona de casa, mãe coragem, compreensão.
Em outros sou carente, mulher demente, dias de ataque, devassidão.
Na corda bamba, vivo dentro da palavra,
Posso ser muitas
Minhas faces, todas elas, entre meus extremos ,
Sou puta devota, puritana convicta.
Quem de mim você já viu?
Linha da vida, palma da mão.
Entre a razão e o coração.
Cambaleando, estou viva, mil faces de emoção."

A pergunta que não quer calar

Por que
felicidade vem em gotas
e tristeza de enxurrada?