terça-feira, 8 de junho de 2010

Na ponta dos meus dedos

Li a primeira vez... apressadamente...
li a segunda... com mais calma...
vi que a cachorrinha Nini estava deitada no tapete perto de mim...
deitei do lado dela... apoiei as pernas na cadeira...
e fiquei lhe fazendo uma foquinha na barriga...
enquanto olhava pela janela...
milhares de coisas me passaram pela cabeça naquele
instante...
mas achei melhor calar...
e apenas tocar de leve o teu rosto, com as pontas dos
meus dedos...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A(s) pergunta(s) que não quer(em) calar

Você já se sentiu tão bem com alguém a ponto de desejar que o mundo parasse?!
Tão verdadeiramente completa(o) que desejasse morrer para não ver, nem sentir, nem ouvir mais nada
que pudesse macular o arrebatamento daquele momento?!
Sabe aquela sensação de eclipse?!
Pois é... suspiro...
Penso serem realmente raríssimas oportunidades como essas na vida...
Então, permita-se!

domingo, 6 de junho de 2010

Pra namorar... porque coisa melhor nesse mundo não há!

Atendendo a pedidos



Atendendo a pedidos, segue a receita ultrasecreta da minha aclamada torta de limão!
Só por favor não espalhem... hahahah

PARA A MASSA
Ingredientes
70g de açúcar
65g de margarina em temperatura ambiente
1 ovo
170g de trigo
3 colheres (de chá) de fermento em pó
Bater os dois primeiros ingredientes até a massa ficar bem clara. Acrescentar os demais ingredientes ao pouco.
Forrar uma forma redonda, de aro removível e fazer uns furinhos, com o garfo, para a massa não inchar.
Levar ao forno pré-aquecido até que fique dourado. O forno já deve estar quente, porque essa é uma massa de bolacha, deve assar com rapidez para ficar crocante.
Qdo estiver assada, tirar do forno sem desligá-lo.

PARA O RECHEIO
Ingredientes
2 latas de leite condensado gelado
1/2 lata de suco de limão espremido na hora
Bater os dois ingredientes no liquidificador até que o creme fique firme. Colocá-lo na geladeira enquanto prepara a cobertura.

PARA A COBERTURA
Ingredientes
4 claras
8 colheres (de sopa) de açúcar
rema de limão
Bater a clara em neve, ir acrescentando o açúcar aos poucos e por último a resma de limão.

Por fim, coloque o recheio dentro da massa já assada e por cima a cobertura. Então, leve ao forno apenas para dourar o suspiro. Sirva depois que esfriar.

Come chocolates, pequena!

"Outro dia minha filha de cinco anos perguntou: “Eu também vou ter que morrer, pai?”, Sim, um dia, respondi. “Mas por quê?”. Não sei, querida, só posso lhe dizer que há perguntas que quanto mais tarde a gente fizer, mais gostoso é o sorvete, mais doce é a noite e mais leve é a vida. Com mais poesia, Fernando Pessoa teria dito o mesmo:

'Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!'"

Já pequena tantas questões me assombravam o espírito e tinha tanta ânsia de crescer para poder mais e quem sabe encontrar as respostas, que lendo esse texto instigante hoje, concluí ter que cuidar para que essa seja das primeiras coisas a ensinar a minha pequena quando questionamentos dessa dimensão começarem a surgir... e do jeito que as crianças estão evoluindo, não deve demorar muito!

Pequeno furto lá do blog do Sandro Sell: http://sandrosell.blogspot.com/
Em todo caso: "Deus, por favor, tenha piedade de mim e me absolva desse pequeno pecado. Amém!"

I try


Jogos, transformações e medos,
Quando partirão daqui?
Quando vão parar?
Eu acredito que o destino nos trouxe aqui
E nós devíamos estar juntos baby, mas nós não estamos
Eu finjo que não quero mas estou sonhando com você
E eu manterei a calma, mas estou desejando profundamente

Eu tento dizer adeus e engasgo
Eu tento ir embora e tropeço
Embora eu tente esconder, está claro
Meu mundo desmorona quando você não está aqui

Talvez eu pareça estar livre, mas eu sou apenas uma prisioneira do seu amor
Eu talvez pareça estar bem e sorrio quando você se vai
Mas meus sorrisos são apenas uma fachada
Eu finjo que não quero mas estou sonhando com você
E eu manterei a calma, mas estou desejando profundamente
(Macy Gray)

Entrevero do Moha

Vou conferir... na volta conto como foi!
Muuuuuuuito bom!!!
Gente bonita, comida boa, festa animada!
Ele conseguiu reunir 8000 pessoas em Lages!
Me surpreendeu!

sábado, 5 de junho de 2010

Mistérios gozosos

“Uma coisa especial ocorre com a mulher depois que ama.
Reparem, estou dizendo, depois que ama.
Não estou me referindo a ela enquanto está no ato do amor.
Disto se pode falar também, e a literatura a partir do romantismo e depois o cinema, modernamente, já tentaram de várias formas simular na relação amorosa como a mulher suspira, se contorce, desliza as mãos e entreabre a boca do corpo e da alma.
Mas, quando digo "depois que ama", refiro-me ao estado de graça que a envolve após o gozo ou gozos, e que perdura horas e horas e às vezes dias.
Fica macia que nem gata aos pés do dono.
Mais que gata, uma pantera doce e íntima.
Sua alma fica lisinha, sem qualquer ruga.
A vida não transcorre mais a contrapelo.
Desliza.
Ela tem vontade de conversar com as flores, com os pássaros, com o vento.
Sobretudo, descobre outro ritmo em sua carne.
É tempo do adágio, de calma e fruição.
Neste período, aliás, o tempo pára.
Em estado de graça ela se desinteressa do calendário.
O cotidiano já não a oprime.
As tarefas da casa, pesadas em outras ocasiões, tornam-se leves, os compromissos mais enjoados podem ser acertados, as tragédias dos jornais já não lhe dizem tanto respeito.
O trabalho do escritório torna-se leve, pode ser feito quase cantando.
Algumas desenvolvem uma súbita necessidade de tecer, outras de aninhar.
Querem bordar, costurar, arrumar coisas na casa, entram em clima de nidificação.
É a hora de uma ociosidade amorosa.
Outras querem presentear o amado e o mundo com pratos sutilíssimos e saborosos.
O fato é que a mulher nessa atmosfera sai do trivial, se angeliza e glorificada, pervaga pela casa.
O homem, animal desatento, às vezes não se dá conta.
Em geral, nunca se dá conta.
Ou dá-se conta nos primeiros minutos após o ato de amor, e depois se deixa levar pela trivialidade, deixando-a solitária em sua felicidade clandestina.
Na verdade, ela sobrepaira ao tempo, está adejando em torno do amado, que deveria suspender tudo para sentir desenhar-se em torno de si esse balé de ternura.
Deveria o homem avisar ao escritório: hoje não posso ir, estou assistindo à reverberação do amor naquela que amo.
E como isto se assemelha à floração rara de certas plantas, os amados deveriam interromper tudo: seus negócios e almoços e ficarem ali, prostrados, diante da que celebra nela o que ele ajudou a deslancha.r
Já vi algumas mulheres assim.
Era capaz de pressentir a 115 m que elas estavam levitando de tanto amor que seus amados nelas desataram.
Há uma coisa grave na mulher que foi ao clímax de si mesma. Que não esteja distraído o parceiro ou parceira.
Ela tem mesmo um perfume diverso das demais.
É um cio diferente.
É quando a mulher descerra em si o que tem de visceralmente fêmea, tranqüila que, mais que possuída, possui algo que atingiu raramente.
As outras mulheres percebem isto e a invejam.
Os machos farejam e se perturbam.
É como se estivessem num patamar seguro a se contemplar.
É quase parecido a quando a mulher vive a maternidade.
Mas aqui é ainda diferente, porque na maternidade existe algo concreto se movimentando dentro dela.
Contudo, nessa atmosfera que se segue a uma epifânica sessão de amor, é diverso, porque ela está acariciando uma imponderável felicidade.
Estou falando de uma coisa que os homens não experimentam assim.
O gozo masculino é mais pontual e parece se exaurir pouco depois do próprio ato.
Só os escolhidos, os de alma feminina, vez por outra, o sentem prolongar-se dentro de si.
Mas em geral, é diferente.
Terminado o ato, uns até rolam para o lado e dormem como se tivessem tirado um fardo do ombro, outros acendem o cigarro, vestem suas ansiedades e voltam ao trabalho.
É constatável, no entanto, que o homem apaixonado também transmite força, alegria, energia.
Ele oscila entre Alexandre o Grande e o artista que chegou ao sucesso.!
Também brilha.
Mas é diferente.
E não é disto que estou falando, senão do gozo feminino que não se esgota no gozo e se derrama em gestos e atenções por horas e dias a fio.
Freud andou várias vezes errando sobre as mulheres e, por exemplo, colocou equivocadamente aquela questão de que a mulher teria inveja do homem por ser este um animal fálico, etc.
Convenhamos: inveja têm (e deveriam ter) os homens quando prestam atenção no fenômeno que ocorre com as mulheres, que ao serem amadas atingem o luminoso êxtase de si mesmas, como se tivessem rompido uma escala de medição trivial para lá da barreira dos gemidos e amorosos alaridos.
É isso: quando a mulher foi amada e bem amada, ela ingressa nessa atmosfera sagrada, cuja descrição se aproxima daquilo que as santas estáticas descreveram.
Uma aura de mistérios as envolve.
E isso, por não ser muito trivial, por não ser nada profano, talvez se assemelhe aos mistérios gozosos de que muitos místicos falaram.”
(Affonso Romano de Sant'Anna)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ontem

"Ontem chorei. Por tudo que fomos. Por tudo o que não conseguimos ser. Por tudo que se perdeu. Por termos nos perdido. Pelo que queríamos que fosse e não foi. Pela renúncia. Por valores não dados. Por erros cometidos. Acertos não comemorados. Palavras dissipadas. Versos brancos. Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido. Pelo respeito empoeirado em cima da estante. Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa. Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados. Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa. Por tudo que foi e voou. E não volta mais, pois que hoje é já outro dia. Chorei. Apronto agora os meus pés na estrada. Ponho-me a caminhar sob sol e vento. Vou ali ser feliz e já volto." (Caio Fernando Abreu)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Desejo mudo


Apesar de decidido, ele permanecia triste.
Ela não compreendia o porquê, diante de tanta convicção.
No início, confessaria que não acreditou, que o desejo de tão mudo e controlado, não permitiria que os corpos se expressassem adequadamente para despertar aquele arrebatamento de que necessitava e tudo não passaria de uma aventura... Enganou-se. O menino tinha virado homem e muito ousado para determinadas coisas. De tímido e contido não havia restado nada, a não ser quando decidia se esconder dela. E não se sentiu invadida, nem pressionada, muito menos irritada com ele... Foi perfeito.
Na volta, percebeu que o esperava com aquela ansiedade gostosa... tinha se produzido pra ele e adorava quando fazia isso, vestia a personagem, sentia-se poderosa, no controle... mas só até que o deixasse assumir. Ocorre que durante o dia não estava mais completamente a disposição como da vez anterior... o que também não impediu que fosse bom e curtido como no primeiro encontro.
Na ida, queria muito percebê-lo em seu "habitat"... passearam, se divertiram, se amaram. Tomaram decisões e se expuseram com uma confiança e cumplicidade que nunca havia sentido antes com outro homem. Se entregaram aos desejos mais secretos, com a segurança de que o que sentiam um pelo outro permitia. E em meio a tantas mãos, tantas bocas, tantos cheiros, sempre o reconheceria! Era instintivo, ele não compreendia. Mesmo assim, sentia-se protegida.
O que os unia se tornou ainda mais forte e ela sentiu medo pela primeira vez. Tinha plena consciência de que embora fosse livre e se permitisse muito, em alguns momentos da vida não havia conseguido alçar vôo... como também tinha de que ele, sendo o oposto disso, de fato não conseguiria.
Precisava retomar o controle.
Ocorre que algumas mulheres sentem uma ansiedade infernal, uma urgência alucinante... no geral são mulheres inquietas... que lutam, não se conformam, são inteligentes, independentes, combativas, com a libido a mil... e que têm consciência de que as respostas ainda trazem consigo novos questionamentos... esses 'furacões' geralmente perturbam os homens... assim, mesmo sem querer, o perturbou...
E quando finalmente ele concordou em se verem novamente, pelo ocorrido no dia anterior ela quis recuar, evitar o iminente desfecho. Sabia que havia muita coisa em jogo e que não se briga contra dez anos e toda uma cidade, com suas pessoas e costumes. Querendo se certificar de que o encontro ainda era desejado por ele, embora tivesse ouvido um 'sim', sabia que naquele momento não podia lhe exigir certeza.
Tomou coragem e foi, apesar de todos os percalços, tendo se perguntado por diversas vezes se o universo não estava querendo lhe dizer alguma coisa. Tinha certeza que sim. 
E lá, tentou desfrutar de cada espaço, de cada momento, de cada toque. A aventura havia sido ainda melhor... e ela o acompanharia sempre... todas as vezes... incansável.
Mas já sabia que naqueles dias ele já não estava mais completamente ali.
Como também tem certeza de que agora não está totalmente lá.
A paixão, o carinho, o amor, a liberdade, a cumplicidade, a curiosidade, a ousadia, o desejo, são fortes o suficiente para nos fazer repensar uma vida inteira.
Ela já havia passado por isso e fazia ideia do que se passava, nesse momento, no peito onde tanto gostava de se recostar.
De uma certa maneira tinham conseguido abrir um oásis em suas vidas. E era bom. Perfeito.
Adorava tê-lo em casa... e sempre quis ficar perto, trazê-lo pra perto, embora nunca tenham feito planos para tanto.
Será que a decisão dele de fazer parar tinha sido acertada? Por que não poderiam se permitir por mais algum tempo? Ela já havia feito isso uma vez e até hoje se arrependia de não ter largado tudo e ido... se permit-ido...
Mas ele, com aquele jeito calado, embora dissesse ser capaz de falar a ela as coisas mais duras, ainda assim tinha dificuldade em se abrir e expressar o que realmente sentia... e logo com ela, que sempre fora tão compreensiva... que havia lhe contado tantas coisas... explicado tantas outras... revelado as verdades que agora sustentava. Por isso apenas dias depois conseguiu lhe perguntar se seria possível amar duas pessoas ao mesmo tempo... mesmo depois de tê-la dispensado.
E diante do dito e do não dito, já sentindo saudades dele, havia decidido se afastar... não pretendia mais ir ao seu encontro...  se calaria... o deixaria em paz... sozinho ou acompanhado de suas próprias inquietações... ela já as tinha em quantidade suficiente.

SICKO - SOS Saúde

No início da semana participei do excelente III Seminário de Direito à Saúde, promovido pela EMAGIS, realizado no auditório da Justiça Federal, em Florianópolis.
Tudo muito organizado, excelentes palestrantes, mas aqui, já que não posso repassar tudo o que foi dito e debatido, sugiro que assistam ao filme:
"As palavras "sistema de saúde" e "comédia" não são facilmente encontradas na mesma frase, mas no mais recente filme de Michael Moore elas podem ser vistas lado a lado. Para mostrar como as coisas funcionam na terra do Tio Sam, Moore ouve as histórias de vários americanos comuns cujas vidas foram despedaçadas, ou arruinadas pelo sistema de saúde americano. O filme mostra que a crise não somente afeta os milhões de cidadãos que não têm seguro de saúde - mas também milhões de outros que pagam religiosamente suas prestações e que estão freqüentemente lutando com a burocracia e com suas regras oficiais obscuras. Para provar que nem tudo está perdido, o cineasta compara outros sistemas de saúde visitando o Canadá, a Inglaterra, a França e a Cuba onde todas as pessoas recebem um bom atendimento médico de forma gratuita."

Excelente! Nos faz pensar no SUS, em políticas públicas, na destinação de recursos orçamentários, em carga tributária e, principalmente, no direito ao voto! Como nós, que podemos confortavelmente usufruir de planos particulares de saúde, poderíamos colaborar para a melhoria do sistema?!
Agora quero assistir ao "Tiros em Columbine", do mesmo diretor, que já me havia sido indicado.

O Direito à Preguiça


Vale cada linha!
O prefácio da Marilena Chauí é imperdível!
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/direitopreguica.html

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Fetiche da Quantidade

A produção científica exigida da minha mãe, uma mulher de 64 anos, ativa, inteligente, experiente, doutora, formadora de opinião (e de outros tantos intelectuais país afora), é definitivamente absurda! Foi uma coisa que me angustiou demais nos últimos quatro dias que passei com ela, tentando ajudar no que me era possível.
Lendo alguns antigos Cadernos Mais! da FSP (que amo, mas aqui nas Lages infelizmente só é distribuída por uma única banca de revista!), me deparei com esse artigo, que expressa com exatidão o que penso sobre o assunto. Vasculhando a internet, encontrei-o em um blog.
Ei-lo:

"O Fetiche da Quantidade
Metas de produtividade e burocracia acadêmica diminuem o potencial de pesquisas científicas. A criação de conhecimento não pode ser medida somente pelo número de trabalhos escritos pelos pesquisadores, como é a tendência atual no Brasil.
A cada tanto tempo, volta-se a discutir como deve ser avaliado o trabalho dos professores. O grande número de pessoas envolvidas nos diversos níveis de ensino, assim como o de artigos e livros que materializam resultados de pesquisa, tem determinado uma preferência por medidas quantitativas.
Se estas podem trazer informações úteis como dado parcial para comparar resultados de escolas em vestibulares ou o desempenho médio de alunos em determinada matéria, sua aplicação como único critério de "produtividade" na pós-graduação vem gerando -a meu ver, pelo menos - distorções bastante sérias.
Não é meu intuito recusar, em princípio, a avaliação externa, que considero útil e necessária. Gostaria apenas de lembrar que a criação de conhecimento não pode ser medida somente pelo número de trabalhos escritos pelos pesquisadores, como é a tendência atual no Brasil. Tampouco me parece correta a fetichização da forma "artigo em revista" em detrimento de textos de maior fôlego, para cuja elaboração, às vezes, são necessários anos de trabalho paciente.
A mesma concepção tem conduzido ao encurtamento dos prazos para a defesa de dissertações e teses na área de humanas, com o que se torna difícil que exibam a qualidade de muitas das realizadas com mais vagar, que (também) por isso se tornaram referência nos campos respectivos.
O equívoco desse conjunto de posturas tornou-se, mais uma vez, sensível para mim ao ler dois livros que narram grandes aventuras do intelecto: "O Último Teorema de Fermat", de Simon Singh (ed. Record), e "O Homem Que Amava a China", de Simon Winchester (Companhia das Letras).
O leitor talvez objete que não se podem comparar as realizações de que tratam com o trabalho de pesquisadores iniciantes; lembro, porém, que os autores delas também começaram modestamente e que, se lhes tivessem sido impostas as condições que critico, provavelmente não teriam podido desenvolver as capacidades que lhes permitiram chegar até onde chegaram.

Everest da matemática
O teorema de Fermat desafiou os matemáticos por mais de três séculos, até ser demonstrado em 1994 pelo britânico Andrew Wiles. O livro de Singh narra a história do problema, cujo fascínio consiste em ser compreensível para qualquer ginasiano e, ao mesmo tempo, ter uma solução extremamente complexa. Em resumo, trata-se de uma variante do teorema de Pitágoras: "Em todo triângulo retângulo, a soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa", ou, em linguagem matemática, a2²=b2²+c2².
Lendo sobre esta expressão na "Aritmética" de Diofante (século 3º), o francês Pierre de Fermat (1601-65) -cuja especialidade era a teoria dos números e que, junto com Pascal, determinou as leis da probabilidade- teve a curiosidade de saber se a relação valia para outras potências: x3³= y3³ + z3, x4 = y4 + z4 e assim por diante. Não conseguindo encontrar nenhum trio de números que satisfizesse as condições da equação, formulou o teorema que acabou levando seu nome -"Não existem soluções inteiras para ela, se o valor de n for maior que 2"- e anotou na página do livro: "Encontrei uma demonstração maravilhosa para esta proposição, mas esta margem é estreita demais para que eu a possa escrever aqui".
Após a morte de Fermat, seu filho publicou uma edição da obra grega com as observações do pai. Como o problema parecia simples, os matemáticos lançaram-se à tarefa de o resolver -e descobriram que era muitíssimo complicado.
Singh conta como inúmeros deles fracassaram ao longo dos 300 anos seguintes; os avanços foram lentíssimos, um conseguindo provar que o teorema era válido para a potência 3, outro (cem anos depois) para 5 etc. O enigma resistia a todas as tentativas de demonstração e acabou sendo conhecido como "o monte Everest da matemática". É quase certo que Fermat se equivocou ao pensar que dispunha da prova, que exige conceitos e técnicas muito mais complexos que os disponíveis na sua época.
Quem a descobriu foi Andrew Wiles, e a história de como o fez é um forte argumento a favor da posição que defendo. O professor de Princeton [universidade americana] precisou de sete anos de cálculos e teve de criar pontes entre ramos inteiramente diferentes da disciplina, numa epopeia intelectual que Singh descreve com grande habilidade e clareza. Não é o caso de descrever aqui os passos que o levaram à vitória; quero ressaltar somente que, não tendo de apresentar projetos nem relatórios, publicando pouquíssimo durante sete anos e se retirando do "circuito interminável de reuniões científicas", Wiles pôde concentrar-se com exclusividade no que estava fazendo.
Por exemplo, passou um ano inteiro revisando tudo o que já se tentara desde o século 18 e outro tanto para dominar certas ferramentas matemáticas com as quais tinha pouca familiaridade, mas indispensáveis para a estratégia que decidiu seguir. Questionado por Singh sobre seu método de trabalho, Wiles respondeu: "É necessário ter concentração total. Depois, você para. Então parece ocorrer uma espécie de relaxamento, durante o qual, aparentemente, o inconsciente assume o controle. É aí que surgem as ideias novas".
Este processo é bem conhecido e costumo recomendá-lo a meus orientandos: absorver o máximo de informações e deixá-las "flutuar" até que apareça algum padrão, ou uma ligação entre coisas que aparentemente nada têm a ver uma com a outra. Uma variante da livre associação, em suma.
Ora, se está correndo contra o relógio, como o estudante pode se permitir isso? A chance de ter o "estalo de Vieira" é reduzida; o mais provável é que se conforme com as ideias já estabelecidas, o que obviamente diminui o potencial de inovação do seu trabalho.

Tarefa hercúlea
Outro exemplo de que o tempo de gestação de uma obra precisa ser respeitado é o de Joseph Needham (1900-95), cuja vida extraordinária ficamos conhecendo em "O Homem Que Amava a China".
Bioquímico de formação, apaixonou-se por uma estudante chinesa que fora a Cambridge [no Reino Unido] para se aperfeiçoar; ela lhe ensinou a língua e, à medida que se aprofundava no estudo da cultura chinesa, Needham foi se tomando de admiração pelas suas realizações científicas e tecnológicas.
Em 1943, o Ministério do Exterior britânico o enviou como diplomata à China, então parcialmente ocupada pelos japoneses. Sua missão era ajudar os acadêmicos a manter o ânimo e a prosseguir em suas pesquisas.
Para saber do que precisavam, viajou muito pelo país e entrou em contato com inúmeros cientistas; em seguida, mandava-lhes publicações científicas, reagentes, instrumentos e o que mais pudesse obter.
Nesse périplo, Needham se deu conta de que -longe de terem se mantido à margem do desenvolvimento da civilização, como então se acreditava no Ocidente- os chineses tinham descoberto e inventado muito antes dos europeus uma enorme quantidade de coisas, tanto em áreas teóricas quanto no que se refere à vida prática (uma lista parcial cobre 12 páginas do livro de Winchester).
Formulou então o que se tornou conhecido como "a pergunta de Needham": se aquele povo tinha demonstrado tamanha criatividade, por que não foi entre eles, e sim na Europa, que a ciência moderna se desenvolveu?
A resposta envolvia provar que existiam condições para que isso pudesse ter acontecido, e depois elaborar hipóteses sobre por que não ocorreu. Daí a ideia de escrever um livro que mostrasse toda a inventividade dos chineses, tendo como base os textos recolhidos em suas viagens e as práticas que pudera observar.
Embora o projeto fosse ambicioso, a Cambridge University Press o aceitou, considerando que, uma vez realizado, abrilhantaria ainda mais a reputação da universidade.
"Science and Civilization in China" [Ciência e Civilização na China] teria sete volumes, e Needham acreditava que poderia escrevê-lo "num prazo relativamente curto para uma obra acadêmica: dez anos".
Na verdade, tomou quatro vezes mais tempo, e, quando o autor morreu, em 1995, já contava 15 mil páginas. Empreendimento hercúleo, como se vê, que transformou radicalmente a percepção ocidental quanto ao papel da China na história da civilização.
O volume de trabalho envolvido era imenso: de saída, ler e classificar milhares de documentos sobre os mais variados assuntos; em seguida, organizar tudo de modo claro e persuasivo, e por fim apresentar algumas respostas à "pergunta de Needham". Várias pessoas o auxiliaram no percurso (em particular, sua amante chinesa), mas a concepção de base, e boa parte do texto final, se devem exclusivamente a ele.

Monumento
Needham não publicou uma linha de bioquímica durante os últimos 30 anos de sua carreira.
Tampouco tinha formação acadêmica em história das ideias -mas isso não o impediu de, com talento e disciplina, redigir uma das obras mais importantes do século 20.
Se tivesse sido atrapalhado por exigências burocráticas, se tivesse de orientar pós-graduandos, se a editora o pressionasse com prazos ou não o deixasse trabalhar em seu ritmo (o primeiro volume levou seis anos para ficar pronto), teria talvez escrito mais um livro interessante, mas não o monumento que nos legou.
O que estes exemplos nos ensinam é que um trabalho intelectual de grande alcance só pode ser feito em condições adequadas -e uma delas é a confiança dos que decidem (e manejam os cordões da bolsa) em quem se propõe a realizá-lo.
Tal confiança envolve não suspeitar que tempo longo signifique preguiça, admitir que pensar também é trabalho, que a verificação de uma ideia-chave ou de uma referência central pode levar meses -e que nada disso tem importância frente ao resultado final.
Em tempo: um dos motivos encontrados por Needham para o estancamento da criatividade chinesa a partir de 1500 foi justamente a aversão de uma estrutura burocrática acomodada na certeza de sua própria sapiência a tudo que discrepasse dos padrões impostos.
Enquanto isso, na Europa (e depois na América do Norte) a inovação era valorizada, e o talento individual, recompensado. Nas palavras de um sinólogo citado no fim do livro, o resultado da atitude dos mandarins foi que "o incentivo se atrofiou, e a mediocridade tornou-se a norma". Seria uma pena que, em nome da produtividade medida em termos somente quantitativos, caíssemos no mesmo erro."

RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular na Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção "Autores", do Mais!.
(Caderno Mais, da FSP, de 09/05/2010).

(Disponível em: http://gpeculturais.blogspot.com/2010/05/o-fetiche-da-quantidade.html).

Partida...

Estava cansada demais pra lutar...
Depois de tantos anos, repentinamente tudo parecia inviável.
O efêmero a perseguia nos últimos meses, inviabilizando o que poderia ter sido.
Foi levá-lo calada. Um misto de tristeza e indignação. Sabia que não havia culpados. A dor era dela, porque assim tinha escolhido. Ele não ousou quebrar o silêncio, mesmo porque, dizer que ficaria seria a única coisa que a faria feliz, mas não podia.
Sempre estiveram mais longe do que perto, por imperativos impostos pelos sonhos que cada um acalentava, pelos planos profissionais que cada um traçou para si.
No entanto, ver, sentir, tocar, ouvir, cheirar, fazia com que considerassem com mais convicção a comunhão absoluta de suas almas... o que se dava apenas nos poucos momentos em que o destino lhes permitia a presença física. E era quando sonhavam, juntos, uma vida de aventuras e viagens... de uma casinha a beira mar que lhes permitisse colocar todos os dias os pés na areia no fim de tarde e, de mãos dadas, divagar sobre os problemas existenciais mais profundos... de experimentos e felicidade... de boas leituras na sala, a dois, curtidas e discutidas... de tortas e cafés e chocolates quentes... do edredon morno e cama desarrumada...
Só que, apesar da afinidade, não lhes era permitido tentar por algum tempo. E isso sempre a deixou com a sensação de incompletude. E a ele com a ilusão de que um dia a convenceria a partirem juntos.
Todo o tempo que ficavam juntos era sempre insuficiente. Até então nunca haviam se permitido mais. E era exatamente nesses momentos de despedida que tais sentimentos tomavam uma dimensão avassaladora!
Se abraçaram demoradamente, como se tudo pudesse ser guardado naquele gesto...
Se olharam daquele jeito de sempre, como se fosse a última vez...
Os lábios apenas se tocaram...
E ela baixou os olhos, como fazia quando estava triste... e ele levantava o queixo com os dedos, beijando a ponta do nariz, como se dissesse: "- Não fica assim, minha menina, tu sabes o quanto te amo!" E dessa vez realmente disse...
Ela afastou-se, assustada, e, antes que pudesse dizer alguma coisa, ele lhe entregou um envelope, lhe deu um beijo morno no pescoço e se pôs a andar, sem olhar pra trás.
Com medo do conteúdo, decidiu subir ao segundo andar para vê-lo partir. Pensou se quem tinha inventado aqueles enormes pássaros mecânicos teria cogitado que eles também serviriam para afastar as pessoas.
Era um momento em que não aguentava mais despedidas... Não suportava mais a ideia de não poder tentar...
E ele se foi...
Já indo buscar o carro, o vento fote marcava em seu rosto a intensidade de tudo o que haviam passado. Sentou-se no carro, pegou o envelope e abriu... Uma lágrima furtiva sinalizou a felicidade pela sensibilidade que lhe dedicara... e, pela primira vez, cogitou segui-lo...
L. Fontes.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Alemão

Ruy, o Fernando já havia me falado do poema/letra/música em alemão... fui procurar no teu blog e fiquei encantada! Dadas as raízes germânica, não resisti e postei aqui! A minha avó o leu em voz alta... Amou e me encantou ainda mais!
Obrigada!

Behüt dich Gott

"Das ist im Leben häßlich eingerichtet,
Daß bei den Rosen gleich die Dornen stehn,
Und was das arme Herz auch sehnt und dichtet,
Zum Schluße kommt das Voneinandergehn.
In deinen Augen hab’ ich einst gelesen,
Es blitzte drin von Lieb und Glück ein Schein:

: B’hüt dich Gott, es wär zu schön gewesen,
Behüt dich Gott, es hat nicht sollen sein!
Leid, Neid und Haß, auch ich hab’ sie empfunden,
Ein sturmgeprüfter müder Wandersmann.
Ich träumt’ von Frieden dann und stillen Stunden,
Da führte mich der Weg zu dir hinan.
In deinen Armen wollt’ ich ganz genesen,
Zum Danke dir mein junges Leben weih’n.

: B’hüt dich Gott, es wär zu schön gewesen,
Behüt dich Gott, es hat nicht sollen sein!

Die Wolken flieh’n, der Wind saust durch die Blätter,
Ein Regenschauer zieht durch Wald und Feld,
Zum Abschiednehmen just das rechte Wetter,
Grau wie der Himmel steht vor mir die Welt.
Doch, wend’ es sich zum Guten oder Bösen,
Du schlanke Maid, in Treuen denk’ ich dein.

: B’hüt dich Gott, es wär zu schön gewesen,
Behüt dich Gott, es hat nicht sollen sein!"
(Melodie - Franz Wilhelm Abt, 1819-1885, op. 213 no. 2
Melodie - Melodie - von Victor Ernst Neßlers Oper “Der Trompeter von Säckingen”, 1884
Melodie - Erik Meyer-Helmund, 1861-1932
Josepf Viktor von Scheffel, 1853 (1826-1886))


E, de fato, é muito bonita (embora triste!)a tradução livre que fizeste da primeira estrofe:

"Está muito mal organizado na vida isso
que junto às rosas haja os espinhos
e o que o pobre coração deseja e sonhe
bem no fim dá tudo ao contrário

Nos teus olhos uma vez eu pude ler
um lampejo de amor e felicidade
Deus te abençoe, teria sido tão lindo
Deus te abençoe, mas não era para acontecer…"